Antimanual esquematizado do concurseiro domesticado

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antimanual

* Publicado originalmente no Instagram @direitos_fundamentais_net *

Aprendi muitas lições em minha vida de concurseiro.
Uma delas é que aprender é mais importante do que estudar.
De nada adianta memorizar textos sem saber o porquê nem o para quê.
De nada adianta decorar detalhes ou peças de informação se não se domina o fundamento do conhecimento.
De nada adianta encher o cérebro com dados que não servem para nada e que serão rapidamente esquecidos ao primeiro sopro de vento.
De nada adianta passar horas e mais horas na frente de livros ou assistindo aula se não há motivação para aprender.
E que ninguém se motiva sem autonomia. O que gera entusiasmo é a capacidade de controlar o próprio destino, de se sentir livre para voar e evoluir. Não há como
se manter estimulado por muito tempo seguindo a cartilha ditada por outras pessoas ou apenas “focado em passar”. A aprendizagem é sempre um ato de rebeldia individual. É você assumindo as rédeas da própria mente, seguindo seus interesses intelectuais e deixando a curiosidade guiar os seus passos.
Quando você se torna o protagonista do próprio destino e se apega a objetivos mais nobres, a motivação vem quase naturalmente. Você começa
a perceber sua evolução e passa a acreditar que pode ir cada vez mais longe. E é a percepção do desenvolvimento pessoal que nos faz acordar no dia seguinte com vontade de continuar aprendendo e se desafiando.
Também aprendi que não se aprende nada de forma passiva. É o uso ativo da informação que gera a aprendizagem. Assistir aula ou até mesmo ler é inútil se não há comprensão do contexto, associação de ideias e uso prático do conhecimento adquirido.
E ninguém pode processar a informação em seu lugar. Você pode ter os melhores professores, os melhores livros, os melhores ambientes de estudo. Nada disso importa se você não está diposto a forçar a mente.
Infelizmente, o que vejo hoje no mundo dos concursos públicos é o oposto de tudo isso.
É uma indústria que vende superficialidade em troca de sonhos.
É um sistema que ao invés de fortalecer a autonomia gera mais e mais dependência intelectual e psicológica.
É a nivelação por baixo, em que a popularidade do conteúdo é inversamente proporcional à profundidade.
É a anti-aprendizagem em seu estado mais bruto, onde não se ensina nem a pensar, nem a resolver problemas, nem a avaliar criticamente, mas apenas a reproduzir um conhecimento enlatado de pouquíssima utilidade prática.
A aprendizagem, nesse contexto, se torna um fardo, um estorvo, uma chatice, em que o aluno completamente desanimado luta obstinadamente para decorar mais alguns itens do edital sem ter nenhuma capacidade de aprender em um nível mais elevado.
O decálogo abaixo é minha anticontribuição para este estado de coisas.
Não é preciso levá-lo muito a sério, pois são apenas devaneios tolos de alguém que nunca se curvou a esse modelo alienante, mas que agora pode assistir o espetáculo de camarote. E que no fundo acredita que algumas almas podem ser salvas…

Eis então o Antimanual Esquematizado do Concurseiro Domesticado:

1 – Decore a lei nos seus aspectos mais inúteis. O importante é ocupar a mente com o máximo de informações irrelevantes que você não sabe para que serve, nem nunca vai usar na vida.

2 – Não se preocupe em estudar os fundamentos da disciplina. Basta olhar para o edital e pinçar o itens que serão cobrados. Você não precisa saber o que é realmente importante, nem mesmo em compreender o sentido da aprendizagem.

3 – Não pense muito, nem seja crítico. A crítica é inimiga da aprovação. Prefira seguir fielmente a cartilha ditada pelos avaliadores e pela indústria dos concursos.

4 – Siga sempre o rebanho. Entre a resposta mais plausível e a mais repetida, escolha a segunda. Afinal, para quê arriscar? É bem mais confortável errar com a maioria.

5 – Leia livros superficiais e se baseie neles. A mediocridade costuma ser premiada.

6 – Trate a jurisprudência (ou melhor, os informativos de jurisprudência) como a encarnação absoluta da verdade, da justiça e do direito. Não se preocupe em conhecer os fatores reais da decisão, nem mesmo os argumentos utilizados pelos julgadores. Basta repetir a ementa da decisão como um bom carneirinho.

7 – Chame qualquer coisa de princípio. Quanto mais princípios malucos você souber, mais profundo vai parecer. Esse é o princípio da superficialidade maquiada.

8 – Memorize as teorias doutrinárias mais esdrúxulas e sem sentido. Esse é o tipo de excentricidade que os avaliadores gostam de cobrar.

9 – Assista aulas divertidas e pobres de conteúdo. O relevante não é aprender, mas desperdiçar o máximo de tempo possível fingindo que está estudando.

10 – Preencha suas horas livres com atividades intelectualmente vazias. Afinal, são horas livres e você não vai querer gastar o seu cérebro, não é mesmo?

 

 

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3 Respostas to “Antimanual esquematizado do concurseiro domesticado”

  1. George Cysne Frota Says:

    Como concurseiro já a algum tempo, vejo que as propagandas de cursinhos e coachings por vezes me balanca pelo cansaço. Tem dias que me sinto altamente preparado… mas dias… Aí vem aquela propaganda no insta que diz, fulando entrou no nosso curso e passou em tantos meses (uau! Meses!). Busco ter fé na minha preparação. Pode não ser a melhor, mas ė a que tenho e bem melhor que ficar pulando de metodologia o tempo todo.

  2. Marcel Says:

    A jurisprudência é a expressão dos “homens prudentes” e constitui o mínimo de segurança jurídica que a coletividade busca. Essa situação de cada juiz “julgar de acordo com a consciência”, em verdadeiro comportamento solipsista prejudica o jurisdicionado.
    Estudos sociológicos demonstram que o juiz que se mantém distante da jurisprudência ocasiona o que se denomina de “desigualdade substancial”, que pode ser expressa na seguinte equação AA -B; AA – C.
    Duas pessoas na mesma situação de ofensa aos direitos recebem do Poder Judiciário veredictos totalmente distintos.

  3. Laura Palmer Says:

    Republicou isso em Nova Visão: Cultura & Cidadania.

Comentários encerrados.


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