Pensar, Depressa e Devagar

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Acabei de ler o espetacular livro “Pensar, Depressa e Devagar” (Thinking, fast and slow), de Daniel Kahneman, Prêmio Nobel de Economia. Até onde sei, o livro ainda não foi publicado no Brasil (Já existe versão disponível no Brasil). Nele, há uma fonte inesgotável de reflexão, com dicas valiosas para não sermos enganados por nossas intuições, nem por nossas emoções.

Kahneman é psicólogo social e ganhou o Nobel por sua contribuição para a economia comportamental. Em linhas muito gerais, Kahneman defende que nossas decisões são guiadas por dois sistemas mentais: o Sistema 1 (automático, intuitivo, apressado) e o Sistema 2 (reflexivo, esforçado, lento). O Sistema 1 comanda a maioria de nossas decisões e funciona bem na maioria das vezes. Porém, esse sistema  costuma ser facilmente enganado, não é bem adaptado para resolver questões mais complexa e se confunde com frequência, sobretudo em questões estatísticas. O Sistema 2, por sua vez, também tem uma grande importância nas nossas vidas, mas, por ser “preguiçoso”, nem sempre consegue se sobrepor ao Sistema 1.

O livro é uma coletânea de experiências realizadas por vários cientistas sociais para demonstrar a dinâmica desses dois sistemas em funcionamento. Há algumas surpreendentes, inclusive envolvendo o meio jurídico, como já tive a oportunidade de comentar aqui.

A grande contribuição de Kahneman para a economia comportamental foi demonstrar que os seres humanos reais não são tão “racionais” quanto pressupõe a economia clássica. A esse respeito, Kahneman faz a distinção entre os Econs (agentes racionais que são sempre coerentes e perseguem inteligentemente seus interesses) e os Humanos (agentes de carne e osso, cujas escolhas nem sempre seguem a lógica da racionalidade pressuposta pelos economistas). Os Humanos, por exemplo, têm uma aversão à perda que provoca diversas escolhas que os economistas chamariam de irracionais. Tome-se a seguinte questão: digamos que você está com uma doença grave a precisa escolher um tratamento. Nessa situação, você prefere um tratamento médico em que há 80% de chance de sobrevivência ou um tratamento médico em que dez de cada cem pacientes morrem? Por incrível que pareça, a maioria das pessoas tende a escolher o tratamento médico em que há 80% de chance de sobrevivência, quando, na verdade, a opção alternativa é muito mais eficiente. O problema é, quando se fala que dez pacientes morrem, a imagem de pessoas mortas afetam o nosso Sistema 1 que fica impressionado e tende a repelir esta alternativa de imediato. Já a opção de “80% de chance de sobrevivência” é mais abstrata e não afeta o Sistema 1 de um modo tão intenso.

Os juízos dos Humanos também são afetados por aquilo que Kahneman denomina de “heurística da disponibilidade”. Tendemos a superdimensionar acontecimentos raros que são amplamente divulgados, apesar de, estatisticamente, a sua existência ser irrisória. O exemplo clássico é o do acidente de avião. Como todo acidente de avião recebe uma atenção midiática intensa, acreditamos que tal acontecimento é mais frequente do que, de fato, é. A imagem das instituições também é afetada por esse fenômeno: como a imprensa apenas divulga as distorções do sistema político ou judicial, a população tende a generalizar e acreditar que a corrupção é a regra e não a exceção. Ninguém nota, por exemplo, que 90% das ações que tramitam no Judiciário referem-se a causas em que os cidadãos buscam seus direitos, como as lides trabalhistas, previdenciárias, de família ou de consumidor. O que vêm á mente quando se fala em Judiciário não é o funcionamento normal das instituições judiciais, mas os casos de corrupção. Há experiências que demonstram que, para cada fato negativo a respeito de algo, são necessários cinco fatos positivos para neutralizar a impressão ruim.

Enfim, o livro nos orienta nessa direção. Vou parar por aqui e deixar que a curiosidade leve-os a se interessar pela obra. A leitura é fácil, mas o livro é longo. São seiscentas páginas de entretenimento inteligente. O Sistema 2 fica cansado, mas, no final, o que conta são os últimos momentos em que sentimos o alívio de tirar a mão do gelo que guardamos na memória. Quem ler o livro todo vai entender o que estou dizendo.

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8 Respostas to “Pensar, Depressa e Devagar”

  1. Thiago Maia Says:

    O livro já foi lançado em português. Encontrei-o no site da Saraiva.

    Link: http://www.livrariasaraiva.com.br/produto/4074748/rapido-e-devagar-duas-formas-de-pensar/

  2. George Marmelstein Lima Says:

    Obrigado pela dica, Thiago.

  3. Luciane Says:

    Prezado Dr. George,

    Sugiro, modestamente, que posicione o site do Dr. Edilson Mougenot Bonfim – do MP de SP – pois é muito rico em aspectos filosóficos tb, além do âmbito penalista. Acho que valeria a pena, mesmo o sr. sendo da Magistratura.
    Obrigada.

  4. Cassiano Says:

    George,

    Esses textos que tratam de como a ciência explica alguns de nossos comportamentos são bem bacanas.

    Dois livros parecidos com o que vc recomendou: Blink, de Malcolm Gladwell, e O Andar do Bêbado, de Leonard Mlodinow. Sem falar no clássico Freakonomics, de Steven Levitt. O Hélio Schwartsman, colunista da Folha (atualmente está de férias, mas escreve no caderno A2) também segue essa linha, inclusive por meio dele conheci a pesquisa sobre a influência da “barriga cheia” nas decisões judiciais.

    • George Marmelstein Lima Says:

      Cassiano, também recomendo o “A Lógica da Vida”, de Tim Harford; “Nudge: o empurrão para a escolha certa”, de Richard Thaler e Cass Sunstein; “O Momento Decisivo”, de Jonah Leher; e vários outros na mesma linha. É um campo mesmo muito promissor, sobretudo por nos estimular a olhar os fenômenos da vida com uma perspectiva diferente.

  5. Alexandre Mendes Lima de Oliveira Says:

    Adoro suas indicações de leitura, professor George!

  6. Alex Lino SIlva (Aparecida/SP) Says:

    Muito bom! Sempre anoto e compro essas indicações e,claro, devoro-as!

  7. Anónimo Says:

    Interessante esse blog. Continuarei acompanhando!

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