A Despedida da “Crítica”

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Li, com muita tristeza, o texto de despedida da revista digital “Crítica na Rede”, dirigida por Desidério Murcho:

A Crítica Despede-se

É difícil dizer se me interessei por filosofia por causa da “Crítica” ou se me interessei pela “Crítica” por causa da filosofia. O certo é que as duas coisas nasceram juntas, quase ao mesmo tempo. Provavelmente, sem a “Crítica”, eu não teria partido para a filosofia com tanto interesse.

Deixo aqui, portanto, a minha gratidão e o meu pesar pelo fim dessa preciosa revista de conhecimento.

 

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4 Respostas to “A Despedida da “Crítica””

  1. Anónimo Says:

    George,

    Considerando que os dois últimos posts falam de “Crítica” e da morte do valoroso juiz italiano, quero unir esses dois assuntos para criticar e propor uma reflexão sobre a morte prematura dos magistrados brasileiros.

    Nossos juízes estão morrendo cada vez mais cedo, cedo demais. Quando não morrem assassinados em razão do cargo que ocupam, morrem pelo envelhecimento precoce, causado pelo desumano excesso de trabalho a que são submetidos, sempre espreitados por metas, pautas e planilhas não raro inatingíveis, como se a missão de julgar fosse uma linha de produção alcancável de modo robotizado.

    É que os juízes andam sempre com os nervos tensos, controlados no entanto pela finura e pela primorosa educação que lhe orna o caráter e o temperamento. O excesso de trabalho, a pouca ou nenhuma funcionalidade do ambiente em que exerce suas atividades, a côngrua remuneração que recebe, as frustração de uma situação financeira continuamente deficitária, a impossibilidade de fazer para sua família aquilo que ela merece ou no mínimo aquilo de que ela precisa, a quase ausência de vida social na permanente reclusão em que tem de viver.

    Todo esse complexo conjunto de circunstâncias faz do juiz um constante angustiado e é responsável por sua precária saúde. E abusando da sempre lembrada e bela expressão de Euclides da Cunha a respeito do sertanejo, poderia dizer-se que o juiz deve, antes de tudo, ser um forte. Forte de corpo e de alma, e forte de saber. Mas como será ele forte se não lhe resta nenhum tempo para exercícios físicos que fortalecem e conservam a saúde? A única ginástica que o juiz faz diariamente é a ginástica financeira…

    O juiz é humano e não máquina, já dizia Charles Chaplin em “O Último Discurso”. Aliás, ainda que o juiz fosse máquina, mereceria tratamento digno, pois até as máquinas necessitam de assistência constante, se se quiser que elas produzam e rendam.

    Lamentavelmente, enquanto os jogadores de futebol têm um tratamento de uma vigilância constante em relação à sua saúde, os juízes são lançados à sua própria sorte, pois parece que não importa para nossa sociedade um juiz sadio e saudável.

    A magistratura de um povo é o seu cartão-postal. Portanto, tratando-se de juízes, o Estado para fazer economia não deve olhar a despesa. Um tratamento funcional e remuneratório condigno para a magistratura não é despesa, mas é investimento em democracia.

    Hoje o juiz é quase um operário braçal, que trocou a toga pelo macacão fabril, pelo excesso monstruoso de serviços que lhe tocam na distribuição diária de feitos. Mas enquanto o metalúrgico é obrigado a fazer ginástica laboral durante sua jornada, o juiz passa o expediente todo preso à cadeira, acarretando problemas na coluna e na circulação das pernas, não tendo tempo sequer para esticar o esqueleto.

    A magistratura está sendo sacrificada, eu quase ia dizer crucificada, pela pletora de trabalho que lhe toca realizar diuturnamente. Infelizmente, chega-se ao ponto de dizer que ser juiz deve ser meio de vida, e não meio de morte como está acontecendo hoje.

    Nessa quadra que vivemos, o juiz se aposenta pelo limite de idade compulsória – pois se sair antes sofrerá grandes perdas no já minguado ordenado, comprometendo ainda mais o já combalido orçamento familiar, o que o força a ficar até a chamada aposentadoria expulsória -, e, quando se aposenta aos 70 anos, já deve ir pensando em seu funeral, porque está acabado fisicamente.

    Cérebro como limão espremido. Vistas cansadas de tanta leitura. Já mal se sustenta em suas pernas, pois praticamente não fez exercícios físicos porquanto integralmente absorvido pelo trabalho. Praticamente enceguecido, neurastênico. Numa palavra, impróprio para viver, exatamente quando deveria saborear as delícias e as doçuras da vida, depois de um longo e estafante exercício no seu cargo. Casando de corpo e alma, de tanto carregar em si as dores alheias, estampadas nas folhas dos autos.

    O juiz não tempo de viver quando está em atividade, mas também não tem como permitir-se viver depois de aposentado, porque exauridas suas forças. Aposenta-se para morrer logo em seguida. O juiz não vê os filhos crescerem. Conta-se que certo juiz passava tanto tempo no foro que um dia chegou em casa e deparou-se com seu filho já crescido gritando para a mãe que havia um estranho em casa. O filho não reconheceu seu próprio pai, porque não teve oportunidade de conviver com ele.

    Que se faça justiça para esse justiceiro injustiçado! Que se faça justiça àquele que viveu fazendo justiça aos outros!

  2. Anónimo Says:

    O juiz do futuro terá que ser religioso, qualquer que seja o seu credo; juiz filósofo, quaisquer que sejam as correntes de opinião que adote; juiz culto, aonde quer que vá buscar as excelências do seu saber; juiz que se extasie diante de uma flor e se comova diante de uma criança; juiz que se apiede, vendo as lágrimas de um pai ou duma desesperada mãe; juiz que traga em si e consigo aquele tesouro de humildade diante das imposturas da vida, suas ironias e perversidades, lembrando sempre da velha sentença — homem sou e nada do que é humano reputo alheio a mim; juiz que se sublime, se comova, lendo um poema ou ouvindo a voz da Natureza nos cantos dos pássaros, e na ternura de um canto de ninar; juiz-pai e pai-juiz, fazendo de cada desgraçado que dele espera justiça, um filho das tenebrosas núpcias do vício com a maldade; juiz que saiba ver a pureza original do homem, embora enegrecido pela lama do mal, envilecido pelo crime mais hediondo; juiz que tenha na alma a divina centelha da caridade, entendida como amor ao próximo; juiz que repita a promessa de Cristo: ‘Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos’; juiz como aquele que a ingratidão da História não lhe guardou o nome, que disse: “Não se retarda de um minuto a alegria de um que chora”; juiz que seja um justo com misericórdia. Justiça e bondade deverão andar manas e mistas, de mãos dadas; justiça didática que ensine ao homem extraviado o caminho certo e reto duma vida justa, fecunda e harmoniosa. Um pouco menor que os anjos foi feito o homem, diz a Bíblia. A vida é que corrompe, o torna um demônio e lobo do outro homem.

  3. Anónimo Says:

    Outra coisa que esqueci: faça um levantamento e verá como está aumentando o número de suicídio de juízes. Num destes casos a magistrada jogou-se de sua sala no fórum. Ninguém quis saber o que ela tinha. Já estava acometida de depressão profunda, mas ninguém se importou. Ninguém aguenta tanta pressão, nem os juízes.

    O juiz recebe parcela da onipotência divina para poder julgar o próximo. Porém, aquele poder divino recai sobre um corpo frágil e humano, sem estrutura. O juiz deve julgar com justiça e rapidez. Deve cumprir metas. Preencher planilhas. Atender pronta e cortesmente partes, auxiliares da justiça e advogados. Tudo isso sempre com urbanidade. Sempre com um sorriso no rosto. E as representações infundadas, cada vez mais frequentes? E as notícias equivocadas nos jornais?

    Todos podem desabafar com o juiz. Todos despejam naquele ser humano as suas misérias. O juiz introjeta diariamente inúmeras coisas negativas. Mas quem se importa com os sentimentos do juiz, daquele ser humano que está atrás da toga?

    Chega-se ao ponto de o juiz ter vergonha de identificar-se no meio social como tal, pois poderá sofrer represálias. Afinal, ninguém sabe se é um “bandido de toga”. Os filhos, na escola, devem ter cautela ao identificarem-se como filhos de magistrado, pois do contrário serão vítimas de bulliyng. A mulher, com as amigas, cala-se, sob pena de sofrer injusto isolamento social.

    Penso que os casos de suicídio de magistrado só não são maiores por causa do respaldo familiar recebido pelo juiz. Sim, é a família do juiz, a mulher e os filhos, que dão sustentáculo àquele homem. É a mulher do juiz a grande sacrificada, a obscura heroína, anônima e solitária, na obra ingente e desconhecida de construir o nome do marido, auxiliar insubstituível não só pelo que faz de ajuda material, mas também pela interminável vigilância ao ambiente do lar, evitando incômodos e perturbações para que o marido possa produzir e prosperar.

    E as renúncias mudas, e os milagres de economia, e os despojamentos femininos de roupas, joias, passeios que faz a mulher do juiz para que seu marido possa ter os caros e necessários livros, seus cursos de aperfeiçoamento? Disso ninguém sabe. Somente o juiz-marido conhece, reconhece e agradece.

    Sem dúvida, os casos de suicídio de magistrado só não são maiores porque a maioria dos juízes tem um exército inteiro na sua retaguarda, para protege-lo entre conselhos e preces. Esse poderoso exército são a esposa e filhos.

    Enquanto o Estado claudica no fornecimento de escolta e segurança aos juízes, a família do magistrado não titubeia e, quando ele sai para sua faina diária, correm esposa e filhos para o pé da cama fazer orações por ele, por sua paz, por sua segurança, por seu êxito e pelo bom êxito de seu dia. E permanecem mulher e filhos na espera angustiosa de que o juiz retorne para a casa feliz e festivo, porque tudo lhe correu bem, segundo seu desejo.

    Pobre família. Pobre esposa. Pobres filhos. Já é noite quando avistam aquele homem de rosto amargurado, de voz cansada, de espírito abatido, carregando consigo as dores alheias e debaixo do braço um punhado de autos que lhe tomarão as poucas horas que seriam da família. Infelizmente, o juiz não tem saída a não ser fazer de seu lar uma sucursal do foro, pois é um torturado pelos prazos, pelo invencível volume de serviço ao qual não deu causa e pela consciência de seu dever.

    E porque é um torturado, tortura também sua família. Chega em casa, prepara-se para o simples jantar e, dentro em pouco, já está sumido novamente, no seu gabinete doméstico, nem sempre funcional, como uma ilha humana, cercado de autos e livros por todos os lados. E esposa que fale baixo, que os filhos não façam barulho, que a televisão (modelo antigo) diminua o volume, que as músicas e as brincadeiras, encanto dos filhos, ou cesse ou fiquem baixinhas, porque nada deve perturbar o juiz que trabalha.

    E aquele homem aparentemente distante, de pensamento mergulhado nos autos, está como isolado em meio à alegria da esposa e filhos. Visitar não visita, receber visitas não recebe, porque seu tempo é pouco para seu trabalho em casa, depois de um dia exaustivo passado no foro. A comunhão da família, o diálogo com a esposa e filhos, isso, de tanta importância, tem de ficar para outro dia, que nunca chega.

    A esposa e os filhos calam e recalcam para o fundo da alma o duro destino da família do juiz. Sem a resignação e o silêncio da esposa que nada reclama, que nada alega, que nada pede, além do côngruo e estritamente necessário, poucos poderiam levar a bom termo a sagrada missão de fazer justiça. Lá vem ele, cabisbaixo, justiceiro injustiçado pelas asperezas da vida de magistrado bom e zeloso, expedito e altivo. Quando deve ao juiz a essa abnegada esposa, pelas orações dessa mulher. Poucos saberão disso. Poucos saberão que é essa a verdadeira realidade. Muito livro caro e necessário que enriquece a biblioteca do marido corresponde a um vestido a menos no guarda-roupa da mulher, um perfume a menos no seu toucador e uma jóia a menos em seu colo. Heroína anônima, a grande desconhecida, é como deveria chamar-se a mulher do juiz, que, na solidão de dias e noites, vela pela vida profissional do mari

  4. Anónimo Says:

    “Lute o juiz por que seja sua sentença justa. Busque nos livros, no severo estudo a lição do seu saber. Mas saberá que a ciência do justo não está escondida nos livros. Ela está escrita em sua alma. Só a consciência lhe atestará se sua sentença foi justa. E se ela confirmar no íntimo de sua alma a confiança de ter acertado, entre temores e angústias, não tema as críticas, não valorize os dissabores, porque eles serão o seu pão de cada dia. E lembre-se sempre daquela máxima dos sempre lecionantes juízes da velha e eterna França: todo litigante que perde tem vinte e quatro horas para falar mal do juiz. Esteja em paz consigo mesmo. O resto não importa” (Eliézer Rosa).

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