Explicando Kant para meu filho de 3 anos

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Nesse clima de férias, estava eu a tomar banho de piscina com meus filhos, quando o mais novo perguntou se podia fazer xixi. Respondi que na piscina não, pois era errado. Na curiosidade típica das crianças, ele perguntou por que fazer xixi na piscina era errado. A resposta que dei foi relativamente mais simples do que a que vou formular agora. De qualquer modo, tenho certeza de que ele também compreenderia, pois é bastante esperto. É uma explicação bem básica do primeiro imperativo categórico kantiano (“age de tal modo que tu possas querer que a tua ação se torne uma lei universal de conduta“). Tal imperativo funciona como uma espécie de roteiro mental para fundamentar subjetivamente as questões morais, desde as mais simples até as mais complexas, partindo do pressuposto de que quem agirá adotará um comportamento racional e sincero.

Para saber se um ato (ou uma máxima, como diria Kant) é moralmente certo ou errado, é preciso seguir quatro passos.

1º Passo – Formulação do Princípio de Ação (Máxima)

O primeiro passo é estabelecer a máxima que será avaliada. Geralmente, é formulada por meio de verbos (matar, mentir, descumprir promessas, suicidar-se etc.). No nosso caso, a máxima é: fazer xixi na piscina.

2º Passo – Especular sobre a Transformação de Tal Princípio de Ação em Lei Universal de Conduta

O passo seguinte é cogitar em uma possível universalização da máxima. Universalização, nesse sentido, significa imaginar uma norma que obrigasse todo mundo a agir da mesma forma naquela situação. A idéia é, portanto, transformar a máxima em uma lei universal. No nosso caso, a lei universal seria: todos deverão fazer xixi na piscina.

3º Passo – Verificar as Conseqüências da Referida Universalização

No terceiro passo, será analisado o que ocorreria se a referida lei universal fosse adotada como padrão na natureza. Em outras palavras: o que aconteceria se todos agissem segundo aquela máxima naquelas circunstâncias?

No nosso caso, basta pensar no que ocorreria se todos que tomassem banho de piscina fizessem xixi na água sempre que tivessem vontade.

4º Passo – Saber se o Agente Moral Aceitaria (Desejaria) as Conseqüências de uma tal Lei Universal

No último passo, o agente moral deverá verificar se aceitaria agir segundo a máxima mesmo sabendo das conseqüências que ela acarretaria se fosse transformada em uma lei universal da natureza, perguntando a si mesmo: “Ficaria eu satisfeito de ver a minha máxima se transformar em lei universal a ser seguida não apenas por mim, mas por todas as outras pessoas racionais?” Se ele responder afirmativamente, então a máxima será moralmente correta. Se ele não aceitar tal lei universal, então a máxima será imoral.

No caso ora analisado, a máxima “fazer xixi na piscina” não poderia ser transformada em uma lei universal,  pois ninguém desejaria tomar banho numa piscina cheia de xixi, que é justamente o que aconteceria se todo mundo urinasse na piscina. Só uma pessoa irracional ou pouco sincera ou muito nojenta preferiria tomar banho numa piscina suja ao invés de tomar banho numa piscina limpinha.

Portanto, aquele que faz xixi na piscina age em contradição consigo mesmo, pois pratica uma ação mesmo não desejando que ela se torne uma lei universal, numa clara violação do primeiro imperativo categórico. Os sujeitos moralmente evoluídos deveriam ficar com dor na consciência ao urinarem na piscina, pois o seu sentimento de dever moral estará sendo pisoteado pela sua própria conduta.

E não importa se o agente moral vai ser descoberto ou não. A sanção moral, para Kant, é subjetiva. No caso do xixi na piscina, dificilmente alguém perceberá que o agente moral está ou não se aliviando debaixo d’água. Mesmo assim, será incondicionalmente imoral realizar tal conduta, pois ela viola o imperativo categórico, que é categórico justamente porque não admite desculpas esfarrapadas do tipo “não deu tempo“, “é só um pouquinho“, “todo mundo faz” etc. Não tem conversa fiada: se você não deseja que os outros façam, então você tem o dever moral de também não fazer e ponto final.

Eis uma resposta kantiana para a pergunta do meu filho. Como se vê, o primeiro imperativo categórico é uma formulação alternativa e mais sofisticada da “regra de ouro” na sua versão positiva: faça aos outros aquilo que você gostaria que os outros lhe fizessem. E foi justamente essa explicação mais simples que dei a meu filho. Perguntei-lhe: “você gostaria de tomar banho numa banheira de xixi?” Ele olhou com uma cara de nojo e respondeu que não.

Sobre isso, Kant certamente diria:

“Não preciso pois de perspicácia de muito largo alcance para saber o que hei de fazer para que o meu querer seja moralmente bom. Inexperiente a respeito do curso das coisas do mundo, incapaz de prevenção em face dos acontecimentos que nele se venham a dar, basta que eu pergunte a mim mesmo: – podes tu querer também que a tua máxima se converta em lei universal? Se não podes, então deves rejeitá-la” (IK, FMC, p. 35/36).

A propósito, no final do dia, a cor da piscina estava bastante “estranha”, demonstrando que o primeiro imperativo categórico não é tão eficaz assim. Acho que nem todo mundo vive no estágio moral “pós-convencional” de que tratou Kohlberg.

***

Essa versão “passo a passo” do imperativo categórico de Kant foi extraída de um texto de Rawls, com ligeiras modificações: http://criticanarede.com/html/eti_kantrawls.html

***

A foto que ilustra o post é bem conhecida: é o Manneken Pis (Menino Mijão), uma pequena estátua que se tornou o símbolo de Bruxelas, que tive a oportunidade de conhecer no ano passado. Segundo a lenda, a estátua foi inspirada em um garoto que, no meio de uma batalha, fez exatamente o que está retratado na foto. Dizem que simboliza a coragem militar.  Para mim, deveria simbolizar o deboche diante de situações absurdas.

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18 Respostas to “Explicando Kant para meu filho de 3 anos”

  1. Vitor Ramalho Says:

    as namoradas usam isso bastante: “Quer ir à festa sozinho? Se ponha no meu lugar!!”.

  2. Joao Paulo Says:

    Legal…

    vamos pensar num caso de um menino mais TRAQUINA.

    E se ele te perguntasse o motivo por que um HOMEM DE 18 ANOS NAO PODE TRANSAR COM uma menina de 12 anos?

    Como solucionar um caso em que a UNIVERSALIZACAO DA CONDUTA ou nao atrapalha OU FAVORECE QUEM PERGUNTA?

    abraco

  3. Fernando Rassi Franca Viana Says:

    Parabéns George!

    Excelente lição e exercício de reflexão para o seu filho.

    Na minha época as coisas eram bem diferentes. Seriam, em suma, assim: Se você fizer xixi na piscina, você estará descumprindo uma autoridade superior (no caso, a do meu pai). Descumprindo uma autoridade superior, você estará infringindo um conjunto de normas cogentes. Infringindo um número de normas cogentes, você será posto em ressocialização. Posto em ressocialização, você terá a cabeça raspada, não poderá assistir desenho animado, jogar futebol e, muito menos, empinar pipa. Então, é isso mesmo que você quer fazer!?

    No caso, são dois meios completamente distintos para se alcançar o mesmo fim. Contudo, sem dúvidas o cogito de Kant é muito mais propício para o despertar da reflexão em nossas atitudes.

    Parabéns novamente e que esse seu lado humano ilumine e desperte a reflexão em todos os jurisdicionados, amigos, parentes, conhecidos, internautas etc que leem os seus textos. Felicidades!

  4. D. Rocha Says:

    É um desdobramento sistemático, uma caracteristica do pensamento científico pós idade média. Parece ser uma estrutura que seduz pela elaboração quando fomenta a vaidade do intelecto.
    Didaticamente falando… Talvez pudessemos substituir a idéia kantiana por outra mais didática, simples e também mais antiga.
    “Fazei aos outros aquilo que gostaria que fosse feito com você”. Uma boa destrava do orgulho e da vaidade, assim também como um bom passo para o Direito de cooperação. O amigo que elaborou essa diretriz, Jesus, disse que ela encerraria todo o princípio ético, traduzindo todo o desdobramento numa só lei.
    Talvez respondesse também a pergunta do João Paulo.
    Acredito que seria bom começarmos tentando por essa…

    Abs,

  5. Joao Paulo Says:

    D. Rocha,

    Com a “regra de ouro” proposta por jesus, tambem nao se pode resolver o caso do homem que prescreve a NORMA MORAL DO SEXO LIVRE. A razao eh simples: eh vontade do agente que todos os homens e mulheres do mundo tenham LIBERDADE de transar com quem quiserem.

    Alias, a regra de Jesus eh estreitamente aparentada com o imperativo categorico de Kant (KELSEN). kelsen rejeita as duas teorias:

    1) A primeira, entre outros motivos, porque “se tormamos esta formula ao pe da letra, imediatamente verificamos que ela conduz a resultados que decididamente nao sao pretendidos por aqueles que dela se servem. Se devemos tratar os outros como queremos ser tratados, fica excluida toda punicao de um malfeitor, pois nenhuma malfeitor deseja ser punido” (Kelsen, O problema da justica, p. 19 e ss.)

    Alem disso, as diferencas entre os homens jah serviria para retirar QUALQUER CARGA DE CIENTIFICIDADE DAS IDEIAS DE JESUS. Nesse sentido, a critica de Kelsen eh inatacavel:
    “Quando a regra de ouro postula que qualquer um de nos trate os outros como subjetivamente desejaria ser tratado por eles, pressupoe-se evidentemente que outros desejam ser tratados assim. Mas isso eh evidentemente e compreende-se de per si – pensa-se – pois todos desejam sem duvida ser bem tratados. Se a regra de ouro fosse observada, haveria concordancia entre os homens quanto a sua concordancia reciproca e nao existiria, portanto, nenhum conflito – alcancar-se-ia a harmonia social. Isto, porem, eh uma ilusao, pois os homens de forma alguma coincidem no seu juizo sobre aquilo que eh subjetivamente bom, ou seja, afinal, naquilo que desejam”(Kelsen, O problema da justica, p. 19 e ss.)(Kelsen, O problema da justica, p. 19 e ss.)

    2) Jah o imperativo categorico de Kant tenta tenta forjar a ideia de que as normas morais NAO PROVEM dos que tem o PODER, mas sao constituidas a partir da razao.

    kelsen demonstra que O IMPERATIVO CATEGORICO tenta impor uma regra moral aos dominados com o seguinte exemplo:

    “[…] o mesmo precisamente se passa com a maxima de uma pessoa que se propoe contribuir apenas para o seu proprio bem-estar, mas nao com o bem-estar dos outros. ‘Ora, eh impossivel’, diz KANT, ‘querer que um tal principio vigore em toda parte como lei natural. Com efeito, uma vontade que isso decidisse contradizer-se-ia a si propria’, pois o homem ‘ atraves de uma tal lei natural emanada de sua propria vontade, se privaria a si proprio de toda a esparanca da ajuda que ele deseja para si’. Eh patente que um egoista pode querer uma lei universal do egoismo e, simultanea e consequentemente, renunciar a ajuda dos outros, podendo, portanto, querer sem contradicao que a sua maxima se torne uma lei universal[…]”(Kelsen, O problema da justica, p. 19 e ss.)(Kelsen, O problema da justica, p. 19 e ss.)

    A dificuldade de aceitar o imperativo categorico do egoista eh justamente a contradicao ENTRE A REGRA MORAL PRESSUPOSTA POR KANT, de que devemos contribuir para o bem estar dos outros e o imperativo categorico do EGOISTA (Kelsen, O problema da justica, p. 19 e ss.)(Kelsen, O problema da justica, p. 19 e ss.)

    Esses dias vi um juiz utilizando a regra KANTIANA para moralizar um bandido que havia furtado por necessidade. Gostaria de que te roubassem se tivesse bens patrimoniais? Entao, voce nao pode praticar essa acao… Usou Jesus para argumentar…. poderia ter usado tambem Kant, tanto faz…
    Na verdade, analisou antes se a conclusao gerada pelo imperativo categorico ERA COMPATIVEL com o que esta prescrito na lei. Viu que era e aplicou.

    E se o carro furtado fosse apenas um dos 10 veiculos que dispunham a vitima? Quem sabe o bandido tambem poderia ter utilizado Kant a seu favor. IMPERATIVO CATEGORICO: pode-se fazer uso de todos os carros que nao sejam utilizados pelo seu dono, desde que devolvidos posteriormente intactos…

    3) Vai ver o melhor seja retirar da filosofia o trabalho de dizer o que eh moralmente certo. O proprio Kant jah admitiu isso quando falou: “que nao eh, pois necessaria, nenhuma ciencia ou filosofia para sabermos o que temos a fazer, para sermos honrados e bons, para sermos ateh sabio e virtuosos” (KANT, citado por Kelsen)

    Quanto a possibilidade da ciencia determinar o que eh moralmente certo, conclui Kelsen:

    “[…] uma ciencia da moral de forma alguma pode responder essa questao, que aquela soh pode determinar sob que condicao ou pressuposto logico sao possiveis os juizos de que algo eh bom ou mau, e que tal condicao eh: pressuporem-se como validas normas gerais que prescrevem uma determinada conduta humana”

    • Fernando Says:

      Mas que discurso mais subversivo, caro João Paulo.

      Ambos métodos de reflexão em questão são aptos a resolver a situação posta pelo senhor.

      Todos sabemos que a argumentação no direito é capaz de fundamentar qualquer ideia, por mais absurda que seja. No entanto, o bom senso é elemento de assaz importância para resolver as situações fático-jurídicas.

      Sugiro que reflita sobre a sua interpretação sobre os fatos e consiga concluir que a sua visão pode se encontrar bastante distorcida da realidade. São inúmeras as interpretações que podemos extrair de um texto, mas deve sempre prevalecer o bom senso.

      Se o bom senso é o que diz as mais altas cortes, não podemos fazer nada, a não ser estudar para um dia almejar um lugar nelas, e, se um dia chegarmos lá, deveremos atuar conforme a nossa consciência, mesmo sabendo que muitos não concordarão com as nossas posições.

      Portanto, desejo-lhe sinceros votos de paz e felicidades e que gaste energia buscando enxergar o lado positivo das coisas, caso não queira enlouquecer.

      Citações excessivas não poderão justificar o absurdo. E tenha consciência de que por mais inteligente que alguém possa ser, o ego poderá destruí-lo.

      Forte abraço!

      • Samantha Says:

        Caro Fernando,

        A sua resposta foi excelente!! Acho que realmente o egocentrismo exacerbado acabam tornando alguns comentários a demonstração da caricatura do insucesso.

        Em relação ao texto do George, acho que seus alunos terão bastante facilidade para compreender as lições sobre o pensamento Kantiano. Nada mais chato que aquelas aulas formais, pouco práticas e cansativas. Dei boas gargalhadas lendo o texto.

    • George Marmelstein Lima Says:

      JP,

      talvez eu precisasse de mais espaço para discutir o excelente livro de Kelsen sobre os “Problemas da Justiça”. Isso não caberia neste comentário. Desejo, contudo, refutar as duas idéias por você apresentada.

      Ao contrário do que pensava Kelsen, tenho certeza de que a regra de ouro é observada 99,99% das vezes. Regra geral as pessoas se respeitam, procuram ajudar uns aos outros e evitam aqueles que causam problemas. A regra de ouro é vencedora em qualquer competição biológica simulada por computador que envolve cooperação social, através da estratégia “Tic for Tat” (pagar na mesma moeda).

      Quanto ao egoísmo vs. caridade, o próprio Kant justificou sua idéia:

      Uma sociedade em que as pessoas não praticassem a caridade poderia até subsistir, “mas embora seja possível que uma lei universal da natureza possa subsistir segundo aquela máxima, não é contudo possível querer que um tal princípio valha por toda a parte como lei natural. Pois uma vontade que decidisse tal coisa pôs-se-ia em contradição consigo mesma: podem com efeito descobrir-se muitos casos em que a pessoa em questão precise do amor e da compaixão dos outros e em que ela, graças a tal lei natural nascida da sua própria vontade, roubaria a si mesma toda a esperança de auxílio que para si deseja” (p. 65). Em outra passagem, Kant invoca seu segundo imperativo categórico para justificar a caridade: “Ora, é verdade que a humanidade poderia subsistir se ninguém contribuísse para a felicidade dos outros, contanto que também lhes não subtraísse nada intencionalmente; mas se cada qual se não esforçasse por contribuir na medida das suas forças para os fins dos seus semelhantes, isso seria apenas uma concordância negativa e não positiva com a humanidade como fim em si mesma. Pois que se um sujeito é um fim em si mesmo, os seus fins têm de ser quanto possível os meus, para aquela idéia poder exercer em mim toda a sua eficácia” (p. 75). Todas as citações são de KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos Costumes (Grundlegung zur Metaphysik der Sitten, 1785). Trad: Paulo Quintela. Lisboa: Edições 70, 2008.

      Logicamente, não considero que as idéias de kant ou mesmo a regra de ouro solucionam todos os problemas éticos, mas apenas dão algum fundamento racional a eles. Ou seja, ajudam a dar uma objetividade aos juízos de valor: objetividade no sentido de que várias pessoas chegariam à mesma conclusão de forma independente.

      E se você acha que tudo é arbitrário, desafio você a me citar alguma sociedade que sobreviveu adotando uma estratégia comportamental que não seja evolutivamente estável.

      No mais, recomendo a leitura do paper sobre a ética da eternidade.

      George

  6. Joao Paulo Says:

    George,

    1) Se a etica nao pertence ao mundo do ser, e sim ao mundo do dever ser, eh sem serventia procurar uma sociedade que sobreviveu adotando uma estrategia comportamental que nao seja evolutivamente estavel. Caso se demonstre a existencia de uma sociedade em que seus membros nao sigam a tal etica da eternidade… ou voce dirah que seu desaparecimento eh iminente ou que um fato contrario ao previsto pela ETICA DA ETERNIDADE, nao a falseia, por ser uma norma do dever ser.

    2) Duas eticas diferentes para cada acao… uma que gera consequencias a curto prazo e outra que gera consequencias a longo prazo? O “longo prazo” deve ser analisado como consequencias geradas para o proprio individuo ou para a sociedade? Parece-me que isso nao ficou bem explicado.
    O que faz o suicida diante de uma decepcao amorosa. Age com a emocao e se mata rapidinho ou age com a razao – e nao se mata – por pensar em outros cidadaos que poderiam influenciar-se por sua pratica? Poderia ajuda-lo, para que se suicidasse, o fato de que NINGUEM SE INFLUENCIA PELOS ATOS DE UM FRACASSADO, DE UM ANONIMO… Seria o uso da razao com toques de subjetivismo (pessimismo)?

    Voltando para a racionalidade na etica da eternidade, o argumento de que DEVO preocupar-me com as geracoes futuras eh bastante fraco. A analise das principais eticas, e a demonstracao de que todas visam o longo prazo eh boa. No entanto, quando vai falar sobre a tal etica da eternidade, voce solta a seguinte perola, pra mim sem relacao logica alguma. Veja:

    “‘Nenhuma concepcao etica pode deixar de pensar nas geracoes futuras, nem na propria vida do planeta, pois eh nele que convivemos. As teorias eticas devem ser estabelecidas com vistas a objetivos de longuissimo prazo, considerando o valor intrinseco e permanente de todas as riquezas ecologicas, nao apenas para o presente, mas, sobretudo, para o futuro”

    Quer dizer que o MOTIVO DE regular minhas acoes pela etica da eternidade eh a constatacao de que a MATERIA MORRE, MAS A ESSENCIA FICA. Se o Aubrey de Grey – cientista que estuda com afinco COMO VIVER ETERNAMENTE – estiver disputando uma tabua de madeira com um mendigo no meio do oceano atlantico… deve o mendigo pensar racionalmente nas consequencias de suas acoes:

    “”Sou apenas mais um mendigo no mundo. O Cientista nao… ele pode AJUDAR NO DESENVOLVIMENTO DA ESPECIE HUMANA, tornando-os iimortais…” Devo largar o pedaco de madeira e me afogar no mar…

    Nao te parece que a etica proposta por KANT, por mais insensata que seja, PARECE CONFORMAR-SE MAIS com a realidade do que a sua? Kant iimpoe a necessidade de homem agir eticamente para livrar a propria pele, para que o motivo da acao ma nao torne LEI UNIVERSAL, ACARRETANDO DANOS A SI MESMO. Jah voce pretende que ALGUEM possa limitar VOLUNTARIAMENTE suas acoes por aqueles que nem nasceram.
    Soh para constar: KANT salvaria o mendigo, voce o mataria…

    3) Queria saber mais sobre a relacao entre a etica da eternidade e o Direito. Por acaso, pretende impor a ETICA DA ETERNIDADE como limite ao conteudo de toda norma juridica e sua utilizacao pelo juiz quando houver LACUNA na aplicacao das normas?

    Samantha,

    Voce deve adorar a PRACA EH NOSSA…

    • Samantha Says:

      A minha fala te causou algum incômodo, foi? ah ah ah… Por que será? A propósito, o egocêntrico adora denegrir a imagem daquele que o contesta. Tenta fazer isso para tornar- se “superior”. Se eu gosto da praça é nossa não faz parte da discussão. De qualquer forma, obrigada pela referência à minha pessoa. Vc tem algum blog? gostaria de conhecer melhor as suas idéias. Abraço.

  7. George Marmelstein Lima Says:

    JP,

    a ética pertence ao mundo da razão, mas a estratégia evolutivamente estável é uma atitude comportamental que atua no mundo do ser e, portanto, serve como limite natural às concepções éticas. Pense numa sociedade que adotasse a seguinte regra ética: “ninguém pode ter filhos de agora em diante”. Certamente, daqui a uns cem anos, não haveria mais ninguém vivo nessa sociedade para contar a história.

    A ética da eternidade não é nenhuma novidade: é apenas uma adaptação da ética utilitarista para que se mirem conseqüências de longo prazo, com base numa fundamentação biológica que tem sido discutida recentemente por vários pensadores de diversas áreas do conhecimento.

    Confesso que também achei fraca a argumentação sobre a preocupação com as gerações futuras se lida fora do contexto geral da ética da eternidade. A minha intenção era apenas fazer um link com as idéias de Hans Jonas (por sinal, ele também não dá uma fundamentação tão sólida para as suas idéias, chegando ao ponto de dizer que o fundamento religioso é o único capaz de dar alguma base a essa concepção, com o que discordo).

    Quanto à relação entre ética da eternidade e o direito, pretendo sim fazer uma relação entre ambos. Não para “impor” qualquer concepção ética como limite de alguma coisa, já que nenhuma concepção ética pode ser imposta subjetivamente a quem quer que seja. A minha idéia é apenas fornecer balizas argumentativas para que os debatedores legitimados, se assim quiserem, possam encontrar a melhor resposta para os problemas éticos.

    Trata-se, portanto, de fazer algo que Kelsen não fez: tentar ajudar as pessoas a encontrarem a melhor resposta ética. A desculpa esfarrapada de que “vale tudo” é uma postura indigna de alguém tão inteligente.

    Por fim, faço questão de citar esse trecho que acredito piamente muito mais por uma questão ética do que por uma quetão de lógica:

    “Sobre a célebre passagem de Wittgenstein que recomenda o silêncio em assuntos “dos quais não se pode falar” e de que “só se deve dizer o que pode ser dito”, merece ser mencionado o igualmente célebre comentário de Schrödinger: “mas é justamente nessa altura que vale a pena falar!”. A resposta de Schrödinger se aplica com muito mais razão no campo da ética, que é um tema que afeta diretamente as nossas vidas e que, por isso mesmo, exige um debate consciente, aberto, transparente e racional. O silêncio diante do sofrimento, da crueldade e da barbárie não é nem nunca será uma atitude correta. O conformismo diante da injustiça nunca pode ser estimulado. O papel moral de qualquer ser humano, seja um cientista, seja um filósofo, seja um jurista, seja um cidadão, é combater, com as armas argumentativas e profissionais de que dispõe, as condutas e os regimes eticamente opressores e lutar por um mundo melhor, ainda que para isso tenha que tentar compreender a lógica e a razão, nem sempre cartesiana, por detrás dos juízos de valor”.

    George

  8. Hugo.D.Perpétuo Says:

    Licença pessoal,

    Como o Professor disse, certamente a “regra de ouro” ou o “imperativo” de Kant jamais resolverão todos os problemas, alguns ate bem colocados pelo João Paulo, pois quando este falou sobre o malfeitor, veio em mente algo semelhante que diz respeito a qualquer tipo de opressão, tanto na escravidão como qualquer outro tipo que já existiu, certamente pela regra de ouro (dando o exemplo dos escravos), os escravos almejam ser tratados de forma digna (creio eu que raramente tinha um que era massoquista), como eles querem isso para si (ser tratado de forma digna), devem agir da mesma forma digna de acordo com a regra de ouro, não lutando contra a opressão, pois essa regra não resolveria o problema, e nem o “primeiro imperativo” ajudaria, pois de acordo com o imperativo, não tem como saber qual conduta usar, pois a luta não pode se transformar em uma lei universal pelo fato do outro também querer lutar e acabar em uma grande guerra (Talvez ate todos os oprimidos querem lutar, assim se tornando a luta uma regra universal dentro daquele estado ou classe da realidade que eles vivem, penso que talvez esse imperativo neste caso deve ser verdadeiramente de categoria – falei nada com nada -), agora já a estratégia do “pague na mesma moeda” seria a conduta mais benéfica neste caso, pois a maioria dos direitos conquistados veio dessa consciência por parte dos oprimidos lutando por melhoria de vida, sendo nesse caso, que a melhor conduta não é universal para todos (pois penso que uma conduta possa ser universal para uma certa classe, como para outras que vivem em outro tipo de realidade-classe não), é tipo o caso de que você toma uma certa conduta de forma absoluta, como se essa conduta a ser usada é verdadeiramente a única e mais correta de acordo com a necessidade de sua classe-realidade, e que esta mesma conduta sendo analisadas por outro pondo de vista já se torna relativa, dessa forma fica difícil dar eficácia ao “primeiro imperativo” nesses casos.

    Agora em uma afirmação do Professor fiquei confuso, parece que a “regra de ouro” e a “estratégia” é igual (Me desculpe se interpretei errado), pois nesse modelo que eu coloquei logo acima, a “regra de ouro” e o “Tic Tac” dão respostas diferentes para o mesmo caso.

    João Paulo, nesse caso que você coloca do mendigo e diz que o Professor o mataria, não entendi direito, a problema da conduta ética é para ser tomada pelo mendigo ou pelo cientista, e não por um terceiro que não faz parte, por isso não entendi sua afirmação que vc diz que o George mataria, pois vejo nesses casos de sobrevivência que é muito difícil impor princípios éticos a serem analisados antes de tomar a conduta, pois posso afirma que se EU fosse o mendigo eu deixava o cientista morrer (se é claro que não a jeito nenhum de sobreviver os dois), e se eu fosse o cientista deixaria o mendigo morrer, assim se estabelecendo um conflito entre os dois, ambos saindo prejudicado, pois nenhum abriria mão para o outro, se concretizando uma batalha entre ambos, semelhante ao “dilema do prisioneiro”, mas aqui neste caso penso eu, ainda não conseguiria achar uma forma racional a longo prazo para resolver o problema.

    Ps: Pensei em um imperativo até sem lógica. Aja te tal maneira que sua conduta seja merecida por todos aqueles a quem ela é ofertada, sendo que ao mesmo tempo seja merecida por você. rsss

    Abraços…

  9. H.D.Perpétuo Says:

    O que eu quis dizer no comentario acima (que ate eu quando fui ler, não consigui interpretar de forma clara) é que nem a “regra de ouro” e nem o “primeiro imperativo” dão respostas corretas ao meu ver no caso dos oprimidos, pois agindo de acordo com ambas “dando a outra face”, a opressão continuará (como J.P mencionou logo a cima, que nenhum malfeitor se considera punido), so agindo de acordo com a estrategia do “pagar na mesma moeda” (No caso como o opressor não tem respeito pelo oprimido, o oprimido faz o mesmo), é que somente a longo prazo talvez encontrará um resposta melhor, foi por isso que formulei esse “imperativozinho” de que (aja de tal maneira que sua conduta seja merecida pela outrem), pois como o opressor agiu de forma errada, desrespeitando o outro, merece essa conduta do oprimido de lutar pelo que é seu, dando origem a ultima parte o “imperativozinho” (Que ao mesmo tempo seja merecida por vc), pois penso que esse imperativo de Kant deve ser evoluido, para poder alcançar todas as classes, pois pensa de forma individualista, porem no “tic tac” vejo uma conduta etica de forma mais coletiva a longo prazo, porem relativa, pois a curto prazo pagar na mesma moeda (no caso em tela: Lutar) talvez não ajude muito ou ate crie uma guerra mais sangrenta, mais a longo prazo, o opressor observando que esta tomando uma conduta anti-etica e que gera problemas para si, resolverá colocar as coisas em ordem, dando fim a etica da conduta do oprimido de lutar, pois ja não precisa mais de lutar pq tem garantido seu respeito. Desta forma dando categoria para o imperativo de kant (Aja de tal forma que sua conduta possa ser tornar universal por aqueles que estão ou possuem o mesmo estado-realidade que voce neste exato momento faz parte), certamente esse imperativo não resposde todas as respostas, ou ate gere muitas injustiças, mas penso que serve apenas para ajudar, e não para ser seguido ao pé da letra.

    Já aquele exemplo dado pelo JP, pq um cara de 18 não pode transar com uma menina de 12 anos é dado de forma ate não tão cristalina pelo Codico Civil, do absolutamente incapaz etc, pq a menina de 12 anos não respode de forma plena pelo seus atos, (ate existem pessoas que considera normal alguem de 18 anos transar com sua filha de 9, no Brasil a menina de 9 ate vira mercadoria e renda para o pai, quando ta com 12 já é VETERANA), AGORA ninguem gostaria que sua filha vendesse seu carro ou sua casa para comprar uma boneca da Suzi, por isso é considerada absolutamente incapaz (o proprio “primeiro imperativo” de Kant ja ajudaria em parte nesta solução), pois se todos vierem a aceitar que sua filha de 12 vendesse seu carro, iria existir uma desordem total, neste caso é so transfirir de forma logica para o caso da relação sexual, e tem outra, afaste a razão e coloque a realidade, diga que se um cara de 18 transa com uma menina de 12, na hora que é pego pela policia, apanha muito, e na hora que cai no xilindró, Fixiiiiiiiiiii, Pense!

    abraçosss

  10. Helio Says:

    George, sei que nao é objeto do post, mas gostaria de tirar uma dúvida. S.689 STF = O segurado pode ajuizar ação contra a instituição previdenciária perante o juízo federal do seu domicílio ou nas varas federais da Capital do Estado-Membro. Seria Capital de qualquer Estado-Membro ou DO estado membro do segurado? Abrs.

  11. jovino mustafa cheik Says:

    Parabéns!!! Adorei seu texto. Rico, legal e inteligente. Recebi essa informação como um presente!!!! Tenho um filho de 4 anos!
    Jovino Mustafa Cheik – Tabelião em Uberlândia- Miraporanga

  12. THAIS Says:

    NAO ACHEI INTERESANTE POIS NAO TINHA OQUE EU PRECISAVA MAS VALEU LER OS TEXTOS

  13. THAIS Says:

    FOI UM BOM TEXTO PARA SER LIDO {ATENTAMENTE}

  14. Helcio Padrao Says:

    citando o filósofo Rudolf Steiner: “…a visão kantiana “age de tal modo que tu possas querer que a tua ação se torne uma lei universal de conduta“ é a morte de todo ímpeto individual para a ação. Não me interessa o que todos fazem, mas sim o que eu devo fazer em determinada situação.” – Filosofia da Liberdade – p.122 – 3a edição. Podemos dizer que grandes feitos para a humanidade realizados por Göethe e Rabindranath Tagore – prêmio nobel de literatura de 1913 -, não teriam sido realizados se seguissem as idéias de Kant. Apenas uma contribuição para os que se propõem ouvir e refletir.

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