A Ética da Eternidade – Parte Final (Vivendo para a Vida Eterna)

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O que significa viver para a vida eterna? Reformulando a pergunta: como pensar em vida eterna sem pensar em religião? A teoria da evolução talvez tenha uma resposta. É uma resposta não-metafísica e, por isso, sujeita à refutação empírica. Mas não pretende, de modo algum, substituir as versões metafísicas e espirituais fornecidas pela religião e pela filosofia. É um argumento a mais para se seguir uma vida ética, que serve de reforço a outras concepções teológicas de eternidade. Não pretendo cair no erro do reducionismo e achar que tudo se resume a uma sobrevivência de genes, até porque a teoria da evolução pode estar errada e nem por isso as teorias éticas cooperativas devem ser vistas como equivocadas.

A hipótese é relativamente simples: hoje estamos vivos porque nossos antepassados souberam adotar a melhor estratégia de sobrevivência diante das informações de que dispunham e das condições ambientais específicas em que viveram. Somos fruto de uma história evolutiva de sucesso. Os pais dos nossos pais tiveram pais cujos pais fizeram o que era correto para sobreviver e assim sucessivamente. Talvez eles tenham tomado decisões sem pensar na nossa existência atual, mas certamente adotaram um estilo de vida que permitiu que nós surgíssemos. Do contrário, nem eu estaria aqui escrevendo nem você estaria aí lendo. A noção de vida eterna, num sentido biológico, está, portanto, ligada à idéia de “estratégia evolutivamente estável”, já mencionada, juntamente com a perpetuação genética daí decorrente.

Se voltarmos a um período muito remoto e talvez hipotético em que a vida era muito simples, um mero aglomerado de células, perceberemos que, de certo modo, ali estavam os nossos primeiros antepassados. Essa vida rudimentar, é lógico, não agia eticamente, pois não tinha capacidade de raciocínio, nem de reflexão. Ela não aprendia com os seus erros, nem formulava abstratamente teorias de ação rivais para serem testadas. O ensaio e erro não era consciente. Por isso, corria muitos riscos: o erro quase sempre era fatal para a sua sobrevivência. O seu sucesso evolutivo foi fruto do acaso ou, para os que acreditam numa intervenção divina, fruto de um desígnio superior. (Aliás, até hoje, os cientistas não conseguiram apresentar explicações convicentes sobre como surgiram essas primeiras formas de vida, por mais simples que fossem. Apesar do livro de Darwin se chamar “A Origem das Espécies”, ele não apresentou qualquer explicação definitiva sobre como a vida se originou, mas apenas como as espécies evoluíram e ainda assim com vários erros que foram apontados posteriormente por seus seguidores).

Na medida em que as formas de vida foram se tornando cada vez mais complexas, começaram a surgir “sensores” cerebrais que davam um sentido finalístico às ações das espécies. Talvez o princípio de sobrevivência mais rudimentar para essa fase da evolução biológica foi este: busque o prazer e evite a dor, que está presente em praticamente todas as espécies mais complexas. Pode ter sido o primeiro instrumento capaz de antecipar as tentativas mal-sucedidas de sobrevivência. O prazer significava sucesso evolutivo; a dor, a morte. Embora já existisse aqui uma convivência entre espécies e até mesmo algumas técnicas rudimentares de mútua cooperação, ainda não há nesse processo um componente ético a orientar as condutas dos organismos, já que não havia consciência nem liberdade de escolha nem linguagem nem memória nem teorias nem raciocínio nem reflexão. Pode-se dizer que havia apenas um mundo 1 (dos fatos) e um mundo 2 (das sensações), para utilizar a metáfora popperiana. As espécies irracionais vivem nesse estágio até hoje.

Algumas espécies desenvolveram uma capacidade cerebral que lhes permitiram sentir outras sensações além do prazer e da dor. O sentimento de empatia é talvez o mais notável: a capacidade de se preocupar com o outro, que é uma característica muito visível entre os animais sociais, desde mamíferos, aves e até peixes e répteis. O sentimento de gratidão também pode ter sido uma importante ferramenta evolutiva: retribuir aqueles que nos ajudam e evitar aqueles que traíram a nossa confiança – eis a receita de sucesso de inúmeras espécies. Para isso, foi necessário que fossem desenvolvidas capacidades cerebrais que permitissem o reconhecimento do outro, bem como capacidades para memorizar o que o outro fez no passado.

No ser humano, a capacidade de se preocupar com o outro também é inquestionável. Primeiro, veio a preocupação mais óbvia: cuidar dos filhos. Aqueles que desenvolveram a capacidade de sentir afeto pelos seus descendentes tiveram mais chances de se perpetuar geneticamente. Por outro lado, os pais desnaturados, que deixam sua prole à mercê de predadores em um ambiente hostil, certamente desaparecem com o passar do tempo. Há, pois, uma tendência natural de que apenas as espécies que cuidam de seus filhos alcance “a vida eterna”, ou seja, a perpetuação genética. Aliás, se há um princípio universal de conduta presente em todas as espécies certamente é este: deixe descendentes e não permita que toda a sua prole morra.

Esse cuidado para com os descendentes foi se ampliando com o passar do tempo. Os parentes mais próximos, como irmãos e primos, tornaram-se também objeto de preocupação afetiva. Depois, essa preocupação estendeu-se aos amigos e, depois, aos demais membros do grupo. Ainda hoje, há um vínculo de afetividade maior entre pessoas que estão próximas. Quanto maior é a quantidade de “genes compartilhados”, maior é a tendência de sentir empatia pelo outro. De certo modo, isso vale até mesmo em relação à nossa capacidade de sentir empatia por outras espécies. Tendemos a sentir mais o sofrimento de um primata do que de uma galinha, por exemplo.

Um alerta importante: não se pode confundir essa tendência natural de se sentir empatia pelo outro com a ética, sob pena de se cair na armadilha da falácia naturalista. A falácia naturalista foi apontada por Moore e consiste em confundir o que é com o que deve ser. O fato de a realidade ser assim não significa dizer que deve ser assim. A ética não deve descrever como são as ações humanas, mas sim deve prescrever princípios normativos que indiquem como devem ser as ações humanas.

Lembrar constantemente a falácia naturalista é fundamental para não se cair no erro do darwinismo social que já provocou conseqüências nefastas para a sociedade, como por exemplo:

(a) ao defender que o papel da ética é “acelerar a evolução”, permitindo uma seleção artificial dos seres humanos “mais aptos”, por meio da eugenia e do extermínio de pessoas supostamente “inferiores”, tal como previa o projeto nazista;

(b) ao defender que o Estado deveria intervir o mínimo possível na sociedade, já que a luta pela sobrevivência seria a principal causa do progresso social, dentro da lógica do “let it be” ou do “live and let die” ou de um “laissez-faire” ético, tal como sugeria Spencer;

(c) ao criar uma situação de conformismo e de resignação em nome de um inevitável determinismo natural, como se o natural fosse necessariamente bom e irremediável;

(d) ao servir como suporte para a pseudo-justificação de medidas discriminatórias em nome de “diferenças naturais” supostamente insuperáveis nos seres humanos, como a tentantiva de se defender que a inteligência ou os talentos pessoais são pré-determinados geneticamente e, por isso, as pessoas não deveriam ser tratadas com igualdade, nem deveriam ser criados mecanismos para compensar essas desigualdades;

(e) ao sugerir uma mera ética da sobrevivência, em que o papel da ética seria tão somente desenvolver mecanismos para permitir a sobrevivência das espécies, sem nenhuma preocupação com a qualidade de vida das pessoas.

O papel da ética é precisamente o contrário. Mesmo que a teoria da evolução seja verdadeira, isso não significa que a ética deve seguir os seus mandamentos como se os seres humanos nada pudessem fazer para mudar a realidade. O que difere os seres racionais das demais espécies é a capacidade de refletir sobre a realidade e exercer um juízo de valor  sobre ela e, partir daí, adotar medidas concretas capazes de, se for o caso, alterá-la. Não se revoltar diante de uma injustiça natural e não lutar para transformá-la é uma atitude indigna de um ser dotado de capacidade de raciocínio e de reflexão.

A ética, assim como a justiça e o direito, não são fenônomenos controlados pela natureza, mas sim por seres racionais. Logo, o papel da ética é fazer com que a convivência entre os seres racionais se dê de forma harmoniosa e equilibrada, sem a implacável dominação do mais forte sobre o mais fraco, que é o que predomina no mundo natural. O que nos torna seres racionais é precisamente a capacidade de refletir sobre nossas emoções e controlar nossos impulsos que se afastem de uma noção ética desenvolvida por nós e para nós. Se na “luta pela vida” da seleção natural os mais fortes têm mais chances de sobreviver, a finalidade da ética é fazer com que os mais fracos tenham iguais chances de sobrevivência e de ter uma vida decente, tranqüila e feliz. Se, por exemplo, as pessoas sentem uma tendência natural para sentir mais simpatia pelos seus compatriotas do que pelos estrangeiros, cabe à ética tentar demonstrar que esse tipo de comportamento não se justifica moralmente, pois todo ser humano merece ser tratado com igual respeito e consideração. Nem tudo o que é natural é ético. Nem tudo o que pode ser explicado racionalmente é necessariamente justo. Como disse Rawls, fatos naturais não podem ser justos ou injustos, éticos ou anti-éticos. É a forma como os seres humanos lidam diante desses fatos naturais que faz com que eles possam ser considerados como justos ou injutos, certos ou errados.

O sentimento de empatia, assim como o sentimento de dor e de prazer, de vergonha, de gratidão e de repúdio, fazem parte do mundo das sensações (Mundo 2) e funcionam como uma “antena” para orientar os seres sencientes a agirem de tal forma a se perpetuarem geneticamente. Essa “antena” tem sido um eficiente mecanismo de sobrevivência. Isso pode explicar porque sentimos tanto prazer com a alimentação ou com o sexo, por exemplo, ou então porque temos tanta ojeriza à dor e à fome. Esses sentimentos podem ter sido “moldados”, pelo menos em alguma medida, pela evolução e são relevantes ferramentas de sobrevivência. Nenhuma teoria ética pode deixar de aproveitar essas emoções como catalisadores das ações humanas e indicativos precários e provisórios de uma conduta ética. Quem defendeu muito bem essa perspectiva foi António Damásio, o famoso neurocientista português: “No que têm de melhor, os sentimentos encaminham-nos na direção correta, levam-nos para o lugar apropriado do espaço de tomada de decisão onde podemos tirar partido dos instrumentos da lógica” (“O Erro de Descartes”, p. 13). No seu livro “Ao Encontro de Espinosa”, ele foi ainda mais além ao tentar explicar o papel das emoções como dispositivos cerebrais  que funcionam para alertar o organismo a respeito das situações que podem ameaçar a existência: “os sentimentos orientam os esforços conscientes e deliberados da auto-conservação e ajudam-nos a fazer escolhas que dizem respeito à maneira como a auto-preservação se deve realizar” (p. 96).

Muitas vezes, os nossos sentimentos nos estimulam a adotar uma postura ética. O cuidado com os filhos é um exemplo notório. Outras vezes, porém, nossos sentimentos podem nos encaminhar para uma direção anti-ética, por uma questão de preconceito gerado pelas falsas generalizações que o nosso “natural” mecanismo de pensamento indutivo nos conduz, tal como demonstrou David Hume.

David Hume, porém, não acreditava no poder da razão. Para ele, “a razão é, e deve ser apenas escrava das paixões; não pode aspirar a outro papel senão o de servi-las e obedecer-lhes” (p. 482). É justamente o oposto. Os sentimentos nos fazem agir pensando em benefícios de curto prazo. A razão, por outro lado, permite que pensemos num futuro mais distante, em que talvez nem mesmo estejamos presentes. Por isso, nenhuma teoria ética deve se basear unicamente nas emoções, pois os sentimentos nem sempre nos levam a agir eticamente, já que as sensações são subjetivas, individuais e, muitas vezes, egoístas ao passo que a ética deve ser objetiva, social e cooperativa. O papel da ética é nos fornecer argumentos de reflexão para que possamos avaliar se nossos sentimentos estão nos levando para o lado certo ou errado, sobretudo quando colocamos os interesses dos outros na balança de nossas decisões e se pensarmos em resultados de longuíssimo prazo.

A ética é uma construção teórica (cultural) que faz parte do mundo do conhecimento objetivo e racional (mundo 3). Todas as informações produzidas pela razão fazem parte desse mundo 3. A matemática, a física, a biologia, o direito, a religião, a música, a arte, a literatura: tudo isto está nesse fantástico mundo 3, que é uma criação tipicamente racional, feita pelos seres humanos (é certo que, hoje, os computadores também estão contribuindo para a expansão do mundo 3. Mas como os computadores são criações humanas, então as informações e teorias desenvolvidas por sistemas de informática são, de certo modo, também criações humanas, ainda que indiretamente).

O mundo 3 não faz parte do mundo físico. O computador que você tem à sua frente e que pode pegar e sentir pertence ao mundo 1. Mas as informações nele contidas fazem parte do mundo 3. O mundo 3 é fruto da razão, da linguagem e da memória coletiva exteriorizada e “existe” apenas num sentido metafórico. Quando entramos em uma biblioteca podemos falar sem medo: é um mundo de informações que tem lá dentro!

Do mesmo modo, o mundo 2 não é um mundo “palpável”. A leitura mental, solitária e silenciosa, que você faz ao olhar o texto no seu computador, bem como os pensamentos vagos, sensações, enfim, tudo o que se passa no interior do seu cérebro, faz parte do mundo 2. O seu mundo 2 é só seu. Quando se diz que “os autistas vivem no seu próprio mundo“, esse mundo é o mundo 2.

Quando você exterioriza seus pensamentos, eles deixam de lhe pertencer e passam a fazer parte do mundo 3, que é o mundo das informações objetivadas, disponíveis a todos os seres racionais e, portanto, tendencialmente democráticas, desde que o acesso a esse mundo 3 seja o mais amplo possível. (É certo que nenhum ser humano tem a capacidade cerebral de armazenar todas as informações disponíveis no mundo 3. Mas por ser uma informação que, em princípio, está disponível a todos, o seu potencial democrático e, portanto, emancipatório é inegável).

As diversas concepções éticas, inclusive aquelas de natureza religiosa, foram desenvolvidas pelos seres humanos para proporcionar uma vida melhor em sociedade, ainda que, muitas vezes, as teorias sejam manipuladas para satisfazer interesses de grupos e de pessoas específicas. Dentro desse processo de desenvolvimento de teorias éticas, as regras  mais simples de convivência tendem a florescer com mais facilidade. Porém, somente aquelas concepções éticas que funcionam na prática sobrevivem e merecem ser seguidas. As sociedades que seguiram condutas éticas destrutivas e não-cooperativas certamente desapareceram (ou desaparecerão) e não deixaram (ou não deixarão) descendentes para contar a história.

Aqui podemos aproveitar uma parte da ética kantiana, que é a idéia de universalidade. Kant dizia que uma conduta será ética se puder se transformar em uma lei universal de conduta. Mas Kant não diz qual a sanção para o descumprimento dessa lei universal de conduta, exceto uma sanção interior provocada pelo sentimento de descumprimento do dever. Além dessa sanção subjetiva, há outro efeito de longo prazo: se você não agir de tal forma que a sua conduta possa se tornar uma lei universal, certamente você, ou melhor, os seus futuros descendentes perderão um lugar na vida eterna, pois, ao seguir uma ética não-cooperativa, você terá mais dificuldades de perpetuar seus genes.

Ressalte-se que uma noção de eternidade e de universalidade de uma teoria ética não significa necessariamente que a ética deva ser uniforme para todos os povos e pessoas, nem mesmo significa a construção de normas éticas imutáveis para todos os tempos e lugares. Universalidade não significa uniformidade, nem padronização; eternidade não significa imutabilidade, nem dogmatismo. A ética está ligada, em primeiro lugar, a uma necessidade natural de sobrevivência (ainda que não somente isso). Logo, como as condições de sobrevivência variam no tempo e no espaço, é natural também que os códigos éticos convencionais contenham regras próprias, ainda que sigam os mesmos princípios éticos gerais, que possuem uma pretensão de universalidade. Aliás, a constante mudança para melhor através da reflexão consciente deve ser uma marca característica de qualquer concepção ética de longo prazo que deseje se adaptar e evoluir à medida em que o próprio ser humano se desenvolve.

R. M. Hare também sugere que os juízos morais devem ser universalizáveis, mas não no sentido de que devam abarcar todas as situações possíveis em todos os lugares e em todas as épocas de forma padronizada. Uma ação ética universalizável é aquela que podemos prescrever independentemente do papel que desempenhamos na sociedade. É preciso levar em conta o interesse de todos os que podem ser afetados por nossas ações. Só depois de levarmos em conta as conseqüências globais de nossas ações, pode-se tomar uma decisão ética e, se a reflexão ética for sincera, devemos nos conformar com o seu resultado mesmo que ela possa nos prejudicar à primeira vista. Nesse processo, não se pode ignorar os efeitos de longo prazo (promoção de laços familiares, criação de relações recíprocas etc.). O ideal é que cada uma de nossas ações seja objeto de uma reflexão ética particularizada e tópica. Porém, como tal atitude é impossível na prática, podemos nos guiar por algumas regras morais previamente estatuídas, não como repositórios de verdade moral absoluta, mas como guias geralmente fiáveis em circunstâncias normais (p. 309).

Qualquer concepção ética, para ter alguma chance de sucesso a longo prazo, precisa ter como mira a idéia de eternidade. As concepções éticas que se preocupam apenas com o aqui e com o agora provavelmente não terão seguidores daqui a mil ou um milhão de anos. “Se alguém propõe uma ética tão nobre que tentar viver à sua luz constitua um desastre para todos, então – independentemente de quem a propôs – não é uma ética nobre de todo, é uma ética estúpida que deve ser firmemente recusada”, diria Peter Singer (p. 305). Isso não significa, contudo,  que quem age segundo a máxima do “aja de tal modo que sua ação possa ser considerada como uma estratégia evolutivamente estável” está necessariamente agindo eticamente. Pode ser que existam estratégias evolutivamente estáveis que não sejam éticas. No entanto, qualquer noção de ética tem que ser uma estratégia evolutivamente estável.

Quando o ditado popular recomenda que todo ser humano deve “fazer um filho, plantar uma árvore e escrever um livro”, significa justamente que devemos pensar num futuro em que não estaremos de corpo presente, mas nossos descendentes certamente estarão. Por isso, devemos deixar descendentes, cuidar do planeta e realizar obras que possam servir de exemplo.

Nenhuma concepção ética pode deixar de pensar nas gerações futuras, nem na própria “vida” do planeta, pois é nele que convivemos. As teorias éticas devem ser estabelecidas com vistas a objetivos de longuíssimo prazo. E o direito – que deve funcionar como um instrumento de realização desses objetivos éticos de longuíssimo prazo – precisa também ter como mira esses pressupostos. Qualquer solução jurídica que não possa se transformar numa “lei universal de conduta” para situações semelhantes e que não tenha como preocupação uma concepção de vida que ultrapasse o momento presente não pode ser aceita.

Nem a ética, nem a justiça, nem o direito são teorias prontas e acabadas. Jamais o ser humano criará uma concepção definitiva de justiça ou de ética, pois as teorias estão sempre sujeitas a melhorias e evoluem conforme o conhecimento humano se acumula e se desenvolve. O máximo que se pode estabelecer são concepções éticas melhores do que outras, mas nunca definitivas.

E uma teoria ética será melhor do que a outra se obedecer aos seguintes parâmetros negativos e positivos (que são meramente sugestivos):

1 – Heurística negativa (o que a ética não deveria ser):

(a) não deve contribuir para a destruição do mundo físico;

(b) não deve provocar sofrimento desnecessário nos seres sencientes;

(c) não deve impedir a expansão do conhecimento objetivo.

2 – Heurística positiva (o que a ética deveria ser):

(d) deve colaborar com a preservação do mundo físico-natural, inclusive as suas espécies biológicas;

(e) deve proporcionar o máximo de prazer e bem-estar possível para as criaturas sencientes;

(f) deve permitir a expansão do conhecimento objetivo, especialmente daquele conhecimento que possa trazer benefícios éticos.

Como pressuposto disso tudo, está naturalmente a capacidade de raciocinar e de auto-refletir sobre os nossos próprios atos e sentimentos, já que a razão deve ser o principal combustível da ética. Nenhuma concepção ética pode ser imposta goela abaixo dos indivíduos. O respeito à autonomia privada é inegociável e somente deve ser limitada quando entrar em choque com o interesse de outras pessoas. Kant e Mill demonstram com muita clareza a importância da liberdade de escolha consciente e pensada como nota distintiva dos seres racionais. E se essa auto-reflexão racional for incrementada com o diálogo intersubjetivo e produtivo, como propunha Apel e Habermas, tanto melhor, pois quanto mais pessoas participam do debate maior é a quantidade de informações disponíveis para se chegar à melhor solução e mais fácil se torna a compreensão dos interesses alheios.

Como se vê, uma teoria ética da eternidade afeta tanto o mundo 1 quanto o mundo 2 quanto o mundo 3.  A ética “para um mundo melhor” deve ser, na verdade, uma ética para “os mundos melhores”. Uma ética que leva em conta apenas o mundo 1 é uma ética naturalista que pode cair no erro da “falácia naturalista”, com conseqüências funestas para a humanidade como um todo. Uma ética que se preocupa apenas com o mundo 2 é uma ética emotivista que pode cair no erro do relativismo moral e, conseqüentemente, da arbitrariedade. Uma ética que se preocupa apenas com o mundo 3 pode cair no erro de um deontologismo radical, alheio às conseqüências que a ação pode acarretar, o que leva ao perigo do fanatismo e da idolatria, inclusive religiosa. Melhor então é uma ética um pouco mais complexa, mas ao mesmo tempo mais útil. A ética da eternidade se preocupa tanto com a vontade  e com a ação e resultados (mundo 1), quanto com os sentimentos e valores subjetivos (mundo 2) e com a razão e valores objetivos (mundo 3).

E justamente por ter consciência de que nunca será definitiva, por ser sempre construída à luz de um conjunto finito de conhecimento que está sempre em expansão, e também por ter consciência de que a mudança é permanente e o futuro imprevisível, a ética da eternidade tende a ser tolerante e plurarista, sem ser contudo anárquica. Ela tenta compreender toda forma de ética que caiba dentro dos parâmetros negativos e positivos por ela estabelecidos e julgará qualquer concepção à luz desses parâmetros. Muitos estilos de vida e formas de cultura certamente atendem à ética da eternidade – e todos merecem ser respeitados. Aliás, até mesmo aquelas pessoas que optam por não seguir uma ética da eternidade também merecem ser respeitadas, pois o mais importante é o respeito à autonomia da vontade. Nenhuma concepção ética pode deixar de respeitar a liberdade de escolha dos indivíduos, salvo quando essa escolha afeta negativamente o interesse de outras pessoas, ocasião em que deverão ser estabelecidos mecanismos de julgamento imparcial (justiça) para definir quais interesses merecem ser respeitados, protegidos e promovidos. Esses critérios imparciais e institucionais de julgamento e de solução de conflitos éticos rivais deveriam seguir, sempre que possível, os parâmetros acima estabelecidos.

Dessa forma, já para concluir, se você prefere seguir uma ética hedonista de curto prazo, achando que o que vale é “se dar bem” às custas dos outros, bom para você. Pode sentir muito prazer, ganhar dinheiro e até mesmo ser feliz. Por outro lado, tenha certeza de que, dificilmente, seus antepassados, aqui incluídos os mais remotos, agiram assim. E pode ter certeza de que, daqui a alguns milhares de anos, os eventuais sobreviventes serão aqueles que tiverem antepassados que, em suas vidas, agiram de acordo com uma ética da eternidade, ainda que inconscientemente. Enfim, no final, somente uma concepção ética que tenha como base essa noção de eternidade sobreviverá. E qualquer concepção ética que se pretenda duradoura deve ter como princípio a cooperação, a honestidade, a mútua confiança, a preocupação com o outro e o estímulo de laços afetivos fortes entre as pessoas para que todos se sintam responsáveis pelo sucesso evolutivo uns dos outros e se ajudem reciprocamente. O nosso papel enquanto seres racionais é fazer com que essa jornada “rumo à eternidade” se torne a mais agradável possível para todos – num sentido bem amplo e aberto da palavra todos.

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19 Respostas to “A Ética da Eternidade – Parte Final (Vivendo para a Vida Eterna)”

  1. Bruno Weyne Says:

    Prezado George, realmente antes não havia compreendido bem a sua proposta de ética da eternidade. Agora está mais claro. Achei, de alguma forma, próxima à proposta de Hans Jonas no “Princípio Responsabilidade”, onde, além de trabalhar uma ética comprometida e preocupada com as gerações futuras, ele se vale de uma heurística do medo. Isso em virtude daquela situação paradoxal esboçada por Apel (Estudos de Moral Moderna e Transformação da Filosofia 1), segundo a qual o desenvolvimento crescente da ciência e da tecnologia colocou a vida humana e planetária em risco, porém essa mesma ciência sustenta (filosofia analítica principalmente) a impossibilidade de uma fundamentação racional de uma (macro)ética de capaz de lidar responsavelmente com esses desafios planetários.

  2. George Marmelstein Lima Says:

    É verdade, Bruno. Até pensei em citar o Hans Jonas, cujas idéias conheço apenas indiretamente.

    no item “f”, procurei deixar claro que se deve estimular a expansão do conhecimento objetivo “que visem objetivos ético”. É uma preocupação semelhante à do Hans Jonas e também do Boaventura quando ele recomenda “um conhecimento prudente para uma vida decente”.

    George

  3. Bruno Weyne Says:

    Ah, George, outra coisa. Logo no início você sustenta a tese de que “Há, pois, uma tendência natural de que apenas as espécies que cuidam de seus filhos alcance “a vida eterna”, ou seja, a perpetuação genética. Aliás, se há um valor ético universal certamente é este: cuide do seu filho”. Eu também defendi isso na minha monografia de conclusão de curso, inspirado pelo excelente capítulo de James Rachels (Elementos de filosofia moral, O desafio do relativismo cultural). Apenas para repassar, meu orientador, prof. Dr. Regenaldo da Costa, chamou minha atenção no sentido de que é problemático defender valores universais partir de exemplos, mesmo que sejam eles os mais óbvios aos nossos olhos(como o de cuidar dos filhos). Afinal, pode haver uma sociedade (primitiva ou não) que realmente não dê valor às crianças. O próprio Rachels, quando fala dos Esquimós, refere-se ao infanticídio. Está bem que o autor defende que é uma forma de sobrevivência da família, que só pode ter um filho por período e que o assassinato do filho não é por falta de amor. Mas poderia ser. Esse é o problema. Os exemplos não são seguros para sustentar uma teoria ética, já demonstrou Kant na “Fundamentação da metafísica dos costumes”. Não sei se concordas, mas para mim serviu de alerta. Abraço.

  4. George Marmelstein Lima Says:

    Bruno,

    também não gosto de falar de valores universais específicos, mas de estratégias de sucesso que são adotadas pela maioria das espécies em situações normais. A estratégia: cuide do seu filho é, sem dúvida, uma estratégia de sucesso, pois facilita a perpetuação genética. Isso logicamente não significa dizer que todas as espécies cuidam do seus descendentes, mas apenas que aquelas espécies que cuidam dos seus descendentes têm mais chances de sobreviver.

    O caso do esquimó comprova a tese. Eles não praticam o infaticídio sem um propósito. No fundo, os grupos de esquimó que praticaram o infanticídio tiveram mais chances de sobreviver naquelas circunstâncias inóspitas. Portanto, eles fazem isso pensando em ganhar a vida eterna (perpetuação genética). É disso que estou falando: quem segue o princípio “aja de tal modo que sua ação possa ser considerada como uma estratégia evolutivamente estável” – sendo essa estratégia cooperativa – tende a perpetuar seus genes ao longo de gerações.

    George

  5. George Marmelstein Lima Says:

    Perceba que não estou dizendo que quem age segundo a máxima do “aja de tal modo que sua ação possa ser considerada como uma estratégia evolutivamente estável” está necessariamente agindo eticamente. Pode ser que existam estratégias evolutivamente estáveis que não sejam éticas. No entanto, qualquer noção de ética tem que ser uma estratégia evolutivamente estável.

    George

  6. Roberto Justus Says:

    George,

    Muito bonita a explanacao. Mas pergunto: o que tem a ver a etica com o direito? Posso ser um jurista sem estudar etica?

    “[…] qualquer nocao de etica tem que ser uma estrategia evolutivamente estavel”.

    EH possivel a etica que propoe no estagio atual do Direito, que tende a considerar todos os fatos da natureza juridicos?

    Se a resposta acima for positiva, pergunto: o sistema de cotas, ao privilegiar o mais fraco, nao eh contra a estrategia da evolucao? Nao seria melhor deixar apenas os mais fortes, os mais preparados intelectualmente, ingressar na Universidade? Com isso nao teriamos maior probabilidade de melhores pesquisas cientificas, e quem sabe novos medicamentos para doencas atualmente incuraveis?

  7. Roberto Justus Says:

    opa, eh possivel a etica no atual estagio do direito, que tende a considerar todos os fatos da natureza juridicos? (correcao a frase do coment anterior

  8. George Marmelstein Lima Says:

    Aprendiz,

    A argumentação que você ironicamente colocou se insere na noção de ética de Spencer e no darwinismo social que eu abomino veementemente e deixei isso muito claro no post. Talvez seja melhor você ler direito.

    Quando digo que a ética deve sugerir condutas dentro da eee (estratégia evolutivamente estável) não quero dizer que se deve buscar um melhoramento genético ou algo parecido.

    A reciprocidade cristã (amai-vos uns aos outros; não faça aos outros…) é uma eee, conforme demonstrei no post passado. Logo, cumpre o primeiro requisito de uma concepção ética.

    Por outro lado, uma concepção ética que dissesse: não tenha nenhum filho. Não crescei e não multiplicai-vos. Essa concepção ética imaginária poderia até ser nobre e com bons propósitos. Porém, em uns quarenta anos, não teria mais nenhum seguidor. Com certeza, não é uma eee.

    A ética da eternidade, tal como proposta acima, não pretende solucionar problemas jurídicos concretos (pelo menos, por enquanto). Mas apenas serve como critério para julgar concepções éticas rivais quando entram em conflito. É uma crítica à concepção relativista que acha que toda ética é arbitrária e contextual.

    George

  9. Guilherme Feldens Says:

    George.
    Esse tem mais a ver ate com partes ditas na parte III, mas como aqui encerra, melhor colocar por aqui mesmo.
    Eu acho que toda motivação humana, por mais altruista que seja, sempre terá um cunho individualista. Digo isso porque, no exemplo citado de cuidar dos filhos, a morte de um filho causará dor ao individuo. Por exemplo, nesse instante, deve haver alguem falecendo no Planeta Terra, mas não nos importamos com isso, embora tenhamos consciencia disso graças aos estudos de estatistica.
    Um exemplo que ajuda a explicar meu raciocinio vem de um programa que vi no National Geografic Channel sobre o cérebro humano. No século XIX, havia um homem nos EUA, que trabalhava em uma companhia de construções de mineração e morava em uma cidade que agora não vou lembrar bem qual é. Ele era casado, tinha 2 filhas, era conhecido por ser um homem amável, honesto, trabalhador e etc. Um dia, quando usava uma marreta para bater em um pedaço de pau, para empurrar dinamites em um valo, uma dinamite estourou, lançando o pedaço de pau contra o homem, que teve um olho furado e o pedaço de pau atravessou sua cabeça. Ele supreendentemente sobreviveu, mas relata-se que após isso, ele se separou da mulher após agredi-la, e como ganhou pensao da conpanhia, gastava todo dinheiro bebendo e vivia brigando com qualquer pessoa que fosse ao bar onde ele ia. Depois o programa explicou que a parte dos sentimentos foi atingida no acidente, e ele perdeu as capacidades de amor, afeto, essas coisas.
    Ou seja, que quero dizer é que, tendo seu sentimentos “desligados”, o homem nao viu problemas em bater na mulher, ficar bebendo a toa. Porque isso ja nao era errado para ele. Antes, mesmo que ele tivesse alguma vontade de faze-lo, suas convicçoes pessoais o impediam, para ele, provavelmente ficaria perturbado consigo mesmo se batesse em sua mulher antes, ou ficasse gastando dinheiro com bebidas.
    Desse ponto, creio que mesmo as ações mais altruistas existentes sao aceitas por um individuo pelo bem estar dentro dele mesmo. É so pegar Peter Singer, ateu, e um religioso fervoroso. Ambos podem agir de forma parecida em um determinado caso, mas por razoes diferentes, pois o contrario lhes pareceria errado.
    Certamente se Singer cre que se deve ter uma vida de poucos prazeres, é porque isso no fundo é aquilo que lhe agrada. Mesmo que ele sinta falta de alguma coisa que poderia ter ou fazer, ficará feliz por satisfazer aquilo que acredita.
    Sobre a cooperação, nao digo nem em auferir vantagens, mas quem o faz satisfaz aquele pensamento de que este é o passo certo. Bem como a preservação do mundo aos descendentes, ou as proximas geraçoes. É algo que o individuo se importa. Se ele nao se importar, não o fará, independente da ética que ele conheça.
    Agora, não quero dizer que a ética não exista, ela sim existe, mas para mim é a forma de interpretação e reação de alguem em relação ao mundo(mais ou menos aquele negocio dos 3 mundos).
    A leitura dos 4 textos foi bem interessante. Parabens pelos posts.
    Guilherme S Feldens

  10. George Marmelstein Says:

    Guilherme,

    esse caso por você citado é bastante famoso. É o caso Gage, que é um clássico da neurociência. O António Damásio discorre a fundo sobre ele no seu “O Erro de Descartes”. Aliás, aproveitei muitas idéias de António Damásio na ética da eternidade, especialmente do livro “Ao Encontro de Espinosa”.

    António Damásio analisou vários casos de pessoas com problemas semelhantes a Gage, ou seja, com incapacidade para sentir emoções “éticas” (de vergonha, gratidão etc.), causados por acidentes cerebrais.

    O curioso é que nesses casos os pacientes saiam-se muito bem em teses de “moral”. Ou seja, eles conseguiam raciocinar logicamente, inclusive para fazer inferências éticas aceitas pela sociedade, mas, na prática, não conseguiam tomar decisões sensatas, o que gerava problema no emprego e na família.

    Daí, Damásio conclui que a emoção tem um papel importante no processo de tomada de decisões.

    Quanto à aferição de vantagens, concordo com Singer quando ele diz que o benefício pessoal não deveria ser motivo para tirar o caráter ético ou altruísta da ação. Se Madre Teresa de Calcutá fez tudo o que fez pensando numa vida ao lado de Deus no futuro, ela agiu eticamente, mesmo que o motivo não seja lá tão altruísta. Se você sacrifica o seu interesse próprio de curto prazo pensando em benefícios de longo prazo, acho que essa atitute não tem nada de egoísta. Mas se você acha que isso é egoísmo, como o Dawkins acha que é, então nossa discussão é meramente terminológica.

    George

  11. Guilherme Feldens Says:

    Nao, eu acho altruista sim.

  12. Thiago. - O Primeiro, e Verdadeiro- O Mais Chato. Says:

    Caros George e Colegas,

    Li atentamente todas as 4 partes, e gostaria de comentar algumas coisas.

    Sobre o conceito de Vida Eterna: Certo é que a conotação escolhida para a abordagem me pareceu bastante lógica e também um bocado astuta.

    Confesso que quando li a parte I pensei que fosse abordar o hipotético diálogo pré-Morte (assassínio-suicídio) de Sócrates constante no diálogo Fedon de Platão, e os devaneios socráticos sobre a morte e a vida eterna (essa explicada por ele por uma frágil interpretação a contrario sensu = “se da vida nasce a morte, da morte só pode vir nascer a vida” entre outras passagens bastante interessantes e criticáveis).

    É de fato indiscutível que, se esse diálogo realmente aconteceu, a discussão sobre a morte e a maneira de encará-la é eminentemente um postulado ético-moral. Sempre há que se ressaltar que sócrates figurativamente pode ser visto tal como hermes: Nunca se soube o que os deuses diziam. Sabia-se, isto sim, apenas o que hermes dizia que os deuses diziam.

    Assim é com Sócrates, no sentido de que só se sabe o que Platão ou Xenofonte diziam que Sócrates dizia. Ouso ir além: No Brasil atual, querem fazer o mesmo com nossa Magnífica Carta Magna: Não se sabe o que ela diz, apenas o que seu Guardião e intérprete diz que ela significa.

    Tudo bem que no passado recente, a Representação Interpretativa que veio com a emenda 7/77 era um devaneio muito pior.

    É no sentido final do último parágrafo que indago: Quem seria, se é que poderia existir, um legítimo intérprete dos preceitos ético-morais?

    Sem ir muito longe, e abordando o texto.

    O excerto abaixo, contido na Parte III, merece uma reflexão mais detida, em especial quanto ao raciocínio em contrário:

    “continua a ser verdade que ajudamos os nossos irmãos porque nos preocupamos com eles, e não devido ao grau de sobreposição genética que existe entre nós. De forma semelhante, o fato de a cooperação ser a melhor política não significa que aqueles que cooperam estejam necessariamente a cooperar porque desejam obter uma vantagem. Por vezes, isto é verdade. (…) Mas, outras vezes, não será. Alguns de nós pertencerão àquele tipo de pessoas que desenvolve sentimentos de simpatia por aqueles que se mostram simpáticos para com elas” (p. 254). “O nosso prazer em estarmos perto dos nossos amigos pode ter origem no fato de retirarmos daí benefícios, mas os sentimentos de amizade não se tornam menos genuínos por causa disso” (p. 255).”

    Quando existe conflito entre parentes próximos, e o exemplo que dou é de uma hipotética divergência quando da partilha de bens por conta de uma doação inoficiosa que o pai falecido fez, quando vivo, ao filho caçula, portador doença raríssima (fato esse que motivou seu pai a fazer a doação), violando a legítima, e por conseguinte causando a ira da companheira superstite e dos outros 3 irmãos mais velhos.

    Aproveito o exemplo acima para tentar inserí-lo nas possíveis soluçôes apreendidas da parte IV. E o faço inserindo dentro das hipóteses negativas e positivas de A a F, após a assertiva e entre {}, tomando a Heurística como a arte de encontrar e descobrir.

    Quanto ao seguinte excerto, e levando em conta o exemplo acima:

    “1 – Heurística negativa (o que a ética não deveria ser):

    (a) não deve contribuir para a destruição do mundo físico;
    {Na suposta doação, os parentes inconformados deveriam abster-se de agir?}

    (b) não deve provocar sofrimento desnecessário nos seres sencientes;
    {O pai, então, não deveria ter doado tal bem para que não causasse sofrimento nos demais filhos?}

    (c) não deve impedir a expansão do conhecimento objetivo.
    {N/C = não consegui encaixar aqui!}

    2 – Heurística positiva (o que a ética deveria ser):

    (d) deve colaborar com a preservação do mundo físico-natural, inclusive as suas espécies biológicas;
    {deveria doar, possibilitando ao filho doente os recursos necessários para eventual tratamento?}

    (e) deve proporcionar o máximo de prazer e bem-estar possível para as criaturas sencientes; {não deveria doar, eis que entre o filho donatário e os demais, deve ser privilegiado a realização da vontade do maior número de pessoas?}

    (f) deve permitir a expansão do conhecimento objetivo, especialmente daquele conhecimento que possa trazer benefícios éticos. {deve doar, pois permitiria não só um possível tratamento para o filho donatário, bem como também traria possibilidade de financiar estudos que levam a novas descobertas}”

    Necessário se nos mostra ser uma pequena observação sobre algumas premissas.

    A começar pelas qualidades negativas. ndependentemente de se fundamentar sobre a escorreita ação, a indagção principal é: Em ocorrendo o mencionado conflito, ele ocorre em sentido negativo (contrario sensu) das assertivas das fls. 254/255 da mecionda obra?

    Claro que quando se escreve sobre ética ou/e moral (ao menos o que leio a respeito), parece que estão a tratar de hagiografia, quando a realidade não é feita de Santos.

    Cita-se, e qui pego carona na vida eterna (a meu ver, repito, bastante intresante a bordagem) que uma passagem bíblica seria a primeira ocorrência que se tem notícia de um pacto dabólico. Ressalto também ue aspreissar bíblicas sobre a vida etena estão, mutatis mutandis, inseridas no já citado diálogo Fedon.

    Quanto ao diálogo bíblico.

    Após Jesus Relar que é o Deus vivo “o Cristo, o Filho do Deus vivo (16:16)”, que veio para salvar e redimir a humanidade e depois ser executado em jersalem, Pedro, o bom amigo, dá um deixa disso e indaga. “Senhor, tem compaixão de ti”, diz: “De modo nenhum te acontecerá isso”. Mas eis que o ungido, longe de agradecer as palavras do Pedro sobre o qual pretende edificar sua igreja, fica zangado. E dispara:

    “Para trás de mim, Satanás, que me serves de escândalo; porque não compreendes as coisas que são de Deus, mas só as que são dos homens.

    Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-me;

    Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, e quem perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á.

    Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma? Ou que dará o homem em recompensa da sua alma?” (16: 23-26)

    Certo estudo sobre essa pssagem menciona:

    “Essa é a versão Almeida Corrigida e Revisada Fiel. Mas o original Grego é muito mais interessante. Por vários motivos.”

    E prossegue:

    “O primeiro é que a passagem desenvolve um trocadilho fascinante nos últimos dois versículos, trocadilho que se perde na tradução. Ao rejeitar a visão, encarnada por Pedro, que só compreende as coisas “que são dos homens” e quer “salvar a sua vida (terrena)”, Jesus sugere que aquele que quiser salvar a “vida” corre o risco de perder a “alma”. O curioso é que as palavras usadas no trecho para falar de “vida” e de “alma” são uma e a mesma: psuchê, um termo bastante polivalente em Grego que, significando originalmente, “borboleta”, denota também “sopro”, “vida” e “alma”. Jesus é o Messias, mas é também um grande ironista. Pois, em uma discussão metalingüística sobre o verdadeiro significado do sopro a salvar, lembra o apóstolo que não se trata desta “vida” transitória, mas – isto sim – a “alma” eterna.

    E é precisamente esta justaposição platônica entre o terreno e o spiritual que leva ao segundo ponto de interesse no texto: a idéia de que é possível trocar (antallásein, em Grego) a salvação por coisas terrenas. Trata-se, entretanto, de uma troca implícita e de nenhuma forma contratual: ao colocar o mundano sobre o divino, aquele apegado às coisas “dos homens” condena sua alma automaticamente. Não há capeta ou contrato na equação. Ainda.”

    Para finalizar e ao mesmo tempo apimentar essa discussão (tão bela e tão rica), menciono que a longo da história temos notícia de inúmeros supostos pactos em que pessoas vendem, trocam ou apostam a alma com o demônio, seja na literatura (quem não se lembrará de Fausto de Goethe com a imprvável fusão do mito de Fausto com a história de Jó) ou na música, racializado pelo Pai o Blues Robert Johnson ou na “sonata em para violino em G menor” de Giuseppe Tartini que teria sido ditada pelo próprio Demônio!

    Sei que a vida eterna usada nos 4 posts é em outro sentido, resumidamente, em preservação da vida e do meio ambiente. Contudo, é indissociável essa visão não laica, mas que também é primordiamente filosófica conforme Sócratis sobre a vida eterna.

    Grade abraço e prabéns pelos textos. Nota 10.

  13. carlos eduardo Says:

    Essa discussão sobre vida eterna leva a uma pergunta: será que é bom viver eternamente?

    Lembro-me do “Dossel Sagrado”. Ao lê-lo, comecei a pensar que deveria ser ruim viver eternamente, a vida se tornaria monótona em determinado momento.

    Seria pior ainda se o paraíso fosse como ilustra a religião cristã: anjos tocando harpa, um velho barbudo e todos de branco felizes para sempre. Eu não aguentaria uma vida dessas, ainda mais eterna.

    Que grande loucura nós inventamos para nos confortar. É extremamente surreal pensar em outra dimensão para a qual seremos enviados (compulsoriamente) após a morte. Seria mais simples, porém atordoante, pensar que após a morte, há apenas o vazio, o nada.

    Caramba, que visão mais niilista!

    Abraço a todos.

  14. Rosangela Says:

    Muito bom seu artigo!
    So pra complementar: Jesus disse em poucas palavras tudo sobre ética: “Tudo o que quiserem que te façam , faça também aos outros” Mt 7:12. As vezes nos esquecemos de nos colocar um pouco no lugar do outro….”

  15. Rosangela Says:

    ah! Esqueci! Sobre a outra questão, a vida eterna: É bem mais inteligente e precavido crer que exista vida eterna, e que vamos prestar contas a Deus de tudo que fizemos com nossa vida aqui, tão passageira e efêmera. Assim podemos nos preparar para o juizo de Deus.
    Caso não haja vida eterna (bem improvável, creio eu), nada se perderá com a crença na mesma.
    Pelo contrário, quem não acredita em vida eterna e vive de qualquer jeito, sem contar que após a morte haverá um juizo de Deus, poderá ter uma surpresa muito desagradável. Vai mesmo se dar mal. É um risco que eu não gostaria de correr… Fica ai a reflexão

  16. Rosangela Says:

    Para apimentar o Thiago, “o verdadeiro”: Em grego a alma ou psyche tem conotação espiritual. Jesus falou de querer ganhar sua vida no sentido metafórico de desfrutar de todos os prazeres carnais que a vida oferece, “ganhando assim a vida, como os epicuristas pregavam”. Mas quem desta forma ganhar sua vida, vai perde-la, ou seja perderá a vida eterna, a vida espiritual, após a passagem desta vida terrena. Por isto ele alerta, negue-se a si mesmo, ou seja, não faça tudo que seu desejo carnal exigir…. o que é espiritual entende tudo espiritualmente, mas o carnal não entende as coisas do espírito, como disse o apóstolo Paulo, ao ser criticado pelos gregos

  17. George Marmelstein Says:

    Rosângela,

    sem quere polemizar, já que discutir religião nem sempre resulta em bons frutos, mas o argumento de Pascal (“aposta de Pascal”) sobre a crença em Deus é considerado como um argumento cínico pelos principais teólogos.

    O argumento é assim:

    * Se você acredita em Deus e nas Escrituras e estiver certo, será beneficiado com a ida ao paraíso.
    * Se você acredita em Deus e nas Escrituras e estiver errado, não terá perdido nada.
    * Se você não acredita em Deus e nas Escrituras e estiver certo, não terá perdido nada.
    * Se você não acredita em Deus e nas Escrituras e estiver errado, você irá para o fogo eterno.

    Trata-se de uma falácia, ou melhor, várias delas: apelo à força, argumento ad terrorem e por aí vai.

    Eis algumas informações simplificadas sobre o tema:

    http://pt.wikipedia.org/wiki/Aposta_de_Pascal

    George

  18. George Marmelstein Says:

    Vale ressaltar que a concepção de eternidade defendida no texto não tem nenhum sentido teológico, espiritual ou metafísico, nem mesmo significa defender que um ser humano pode viver para sempre enquanto indivíduo, nem que existe vida depois da morte ou uma alma imortal capaz de sobreviver ao término da existência corporal, nem nada parecido. É uma mera eternidade biológica: quem age cooperativamente tem mais chances de se perpetuar geneticamente.

    George

  19. Thiago. - O Primeiro, e Verdadeiro- O Mais Chato. Says:

    Rosangela,

    Na verdade, para apimentar de verdade, que cheiremos, ouçámos, degustemos, toquemos os números V,VI, VII,VIII e IX de “O Guardador de Rebanhos” de “Alberto Caeiro”, o que cita-se abaixo. Mas o mesmo resultado se obtem fazendo as mesmas coisas com “O Pagador de Promessas – de Dias Gomes” após indagar quem é Yansan e quem é Santa Bárbara.

    “V –
    Há metafísica bastante em não pensar em nada.
    O que penso eu do mundo?
    Sei lá o que penso do mundo!
    Se eu adoecesse pensaria nisso.
    Que ideia tenho eu das cousas?
    Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
    Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
    E sobre a criação do Mundo?
    Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
    E não pensar. É correr as cortinas
    Da minha janela (mas ela não tem cortinas).
    O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
    O único mistério é haver quem pense no mistério.
    Quem está ao sol e fecha os olhos,
    Começa a não saber o que é o sol
    E a pensar muitas cousas cheias de calor.
    Mas abre os olhos e vê o sol,
    E já não pode pensar em nada,
    Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
    De todos os filósofos e de todos os poetas.
    A luz do sol não sabe o que faz
    E por isso não erra e é comum e boa.
    Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
    A de serem verdes e copadas e de terem ramos
    E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
    A nós, que não sabemos dar por elas.
    Mas que melhor metafísica que a delas,
    Que é a de não saber para que vivem
    Nem saber que o não sabem?
    «Constituição íntima das cousas»…
    «Sentido íntimo do Universo»…
    Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
    É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
    É como pensar em razões e fins
    Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
    Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.
    Pensar no sentido íntimo das cousas
    É acrescentado, como pensar na saúde
    Ou levar um copo à água das fontes.
    O único sentido íntimo das cousas
    É elas não terem sentido íntimo nenhum.
    Não acredito em Deus porque nunca o vi.
    Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
    Sem dúvida que viria falar comigo
    E entraria pela minha porta dentro
    Dizendo-me, Aqui estou!
    (Isto é talvez ridículo aos ouvidos
    De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
    Não compreende quem fala delas
    Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)
    Mas se Deus é as flores e as árvores
    E os montes e sol e o luar,
    Então acredito nele,
    Então acredito nele a toda a hora,
    E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
    E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
    Mas se Deus é as árvores e as flores
    E os montes e o luar e o sol,
    Para que lhe chamo eu Deus?
    Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
    Porque, se ele se fez, para eu o ver,
    Sol e luar e flores e árvores e montes,
    Se ele me aparece como sendo árvores e montes
    E luar e sol e flores,
    É que ele quer que eu o conheça
    Como árvores e montes e flores e luar e sol.
    E por isso eu obedeço-lhe,
    (Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),
    Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
    Como quem abre os olhos e vê,
    E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
    E amo-o sem pensar nele,
    E penso-o vendo e ouvindo,
    E ando com ele a toda a hora.

    VI
    Pensar em Deus é desobedecer a Deus,
    Porque Deus quis que o não conhecêssemos,
    Por isso se nos não mostrou…
    Sejamos simples e calmos,
    Como os regatos e as árvores,
    E Deus amar-nos-á fazendo de nós
    Belos como as árvores e os regatos,
    E dar-nos-á verdor na sua primavera,
    E um rio aonde ir ter quando acabemos!…

    VII
    Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo…
    Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
    Porque eu sou do tamanho do que vejo
    E não do tamanho da minha altura…
    Nas cidades a vida é mais pequena
    Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
    Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
    Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
    Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
    E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.

    VIII
    Num meio-dia de fim de primavera
    Tive um sonho como uma fotografia.
    Vi Jesus Cristo descer à terra.
    Veio pela encosta de um monte
    Tornado outra vez menino,
    A correr e a rolar-se pela erva
    E a arrancar flores para as deitar fora
    E a rir de modo a ouvir-se de longe.
    Tinha fugido do céu.
    Era nosso demais para fingir
    De segunda pessoa da Trindade.
    No céu era tudo falso, tudo em desacordo
    Com flores e árvores e pedras.
    No céu tinha que estar sempre sério
    E de vez em quando de se tornar outra vez homem
    E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
    Com uma coroa toda à roda de espinhos
    E os pés espetados por um prego com cabeça,
    E até com um trapo à roda da cintura
    Como os pretos nas ilustrações.
    Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
    Como as outras crianças.
    O seu pai era duas pessoas…
    Um velho chamado José, que era carpinteiro,
    E que não era pai dele;
    E o outro pai era uma pomba estúpida,
    A única pomba feia do mundo
    Porque não era do mundo nem era pomba.
    E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
    Não era mulher: era uma mala
    Em que ele tinha vindo do céu.
    E queriam que ele, que só nascera da mãe,
    E nunca tivera pai para amar com respeito,
    Pregasse a bondade e a justiça!
    Um dia que Deus estava a dormir
    E o Espírito Santo andava a voar,
    Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
    Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
    Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
    Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
    E deixou-o pregado na cruz que há no céu
    E serve de modelo às outras.
    Depois fugiu para o sol
    E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
    Hoje vive na minha aldeia comigo.
    É uma criança bonita de riso e natural.
    Limpa o nariz ao braço direito,
    Chapinha nas poças de água,
    Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
    Atira pedras aos burros,
    Rouba a fruta dos pomares
    E foge a chorar e a gritar dos cães.
    E, porque sabe que elas não gostam
    E que toda a gente acha graça,
    Corre atrás das raparigas
    Que vão em ranchos pelas estradas
    Com as bilhas às cabeças
    E levanta-lhes as saias.
    A mim ensinou-me tudo.
    Ensinou-me a olhar para as cousas.
    Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
    Mostra-me como as pedras são engraçadas
    Quando a gente as tem na mão
    E olha devagar para elas.
    Diz-me muito mal de Deus.
    Diz que ele é um velho estúpido e doente,
    Sempre a escarrar no chão
    E a dizer indecências.
    A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
    E o Espírito Santo coça-se com o bico
    E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
    Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
    Diz-me que Deus não percebe nada
    Das coisas que criou –
    «Se é que ele as criou, do que duvido» –
    «Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória
    Mas os seres não cantam nada.
    Se cantassem seriam cantores.
    Os seres existem e mais nada,
    E por isso se chamam seres.»
    E depois, cansado de dizer mal de Deus,
    O Menino Jesus adormece nos meus braços
    E eu levo-o ao colo para casa.
    Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
    Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
    Ele é o humano que é natural,
    Ele é o divino que sorri e que brinca.
    E por isso é que eu sei com toda a certeza
    Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
    E a criança tão humana que é divina
    É esta minha quotidiana vida de poeta,
    E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
    E que o meu mínimo olhar
    Me enche de sensação,
    E o mais pequeno som, seja do que for,
    Parece falar comigo.
    A Criança Nova que habita onde vivo
    Dá-me uma mão a mim
    E a outra a tudo que existe
    E assim vamos os três pelo caminho que houver,
    Saltando e cantando e rindo
    E gozando o nosso segredo comum
    Que é o de saber por toda a parte
    Que não há mistério no mundo
    E que tudo vale a pena.
    A Criança Eterna acompanha-me sempre.
    A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.
    O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
    São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
    Damo-nos tão bem um com o outro
    Na companhia de tudo
    Que nunca pensamos um no outro,
    Mas vivemos juntos e dois
    Com um acordo íntimo
    Como a mão direita e a esquerda.
    Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
    No degrau da porta de casa,
    Graves como convém a um deus e a um poeta,
    E como se cada pedra
    Fosse todo um universo
    E fosse por isso um grande perigo para ela
    Deixá-la cair no chão.
    Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
    E ele sorri, porque tudo é incrível.
    Ri dos reis e dos que não são reis,
    E tem pena de ouvir falar das guerras,
    E dos comércios, e dos navios
    Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
    Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
    Que uma flor tem ao florescer
    E que anda com a luz do sol
    A variar os montes e os vales
    E a fazer doer aos olhos os muros caiados.
    Depois ele adormece e eu deito-o.
    Levo-o ao colo para dentro de casa
    E deito-o, despindo-o lentamente
    E como seguindo um ritual muito limpo
    E todo materno até ele estar nu.
    Ele dorme dentro da minha alma
    E às vezes acorda de noite
    E brinca com os meus sonhos.
    Vira uns de pernas para o ar,
    Põe uns em cima dos outros
    E bate as palmas sozinho
    Sorrindo para o meu sono.
    Quando eu morrer, filhinho,
    Seja eu a criança, o mais pequeno.
    Pega-me tu ao colo
    E leva-me para dentro da tua casa.
    Despe o meu ser cansado e humano
    E deita-me na tua cama.
    E conta-me histórias, caso eu acorde,
    Para eu tornar a adormecer.
    E dá-me sonhos teus para eu brincar
    Até que nasça qualquer dia
    Que tu sabes qual é.
    Esta é a história do meu Menino Jesus.
    Por que razão que se perceba
    Não há-de ser ela mais verdadeira
    Que tudo quanto os filósofos pensam
    E tudo quanto as religiões ensinam?

    IX
    Sou um guardador de rebanhos.
    O rebanho é os meus pensamentos
    E os meus pensamentos são todos sensações.
    Penso com os olhos e com os ouvidos
    E com as mãos e os pés
    E com o nariz e a boca.
    Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
    E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
    Por isso quando num dia de calor
    Me sinto triste de gozá-lo tanto,
    E me deito ao comprido na erva,
    E fecho os olhos quentes,
    Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
    Sei a verdade e sou feliz.”

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