Um tapinha que doeu

by
Lendo a Migalhas 1.867 me deparei com a notícia abaixo, que, por sinal, me lembrou o post “Um tapinha não doí“, que escrevi ano passado.

Particularmente, acho meio exagerado esse tipo de censura musical.

Quantas músicas belíssimas não seriam censuradas se a mesma lógica fosse utilizada?

Eis a notícia:

A multa dói

Furacão 2000 é condenada ao pagamento de multa no valor de 500 mil reais pelo lançamento da música “Um Tapinha Não Dói”

A empresa Furacão 2000 Produções Artística Ltda foi condenada pela Justiça Federal ao pagamento de multa no valor de 500 mil reais pelo lançamento da música “Um Tapinha Não Dói”, no início desta década. A ação civil pública foi ajuizada pelo Ministério Público Federal e pela Themis – Assessoria Jurídica e Estudos de Gênero, em janeiro de 2003, por considerar que a música banaliza a violência contra a mulher, transmite uma visão preconceituosa contra a imagem da mesma, além de dividir as mulheres em boas ou más conforme sua conduta sexual.

Na inicial da ação civil pública, o então procurador Regional dos Direitos do Cidadão Paulo Gilberto Cogo Leivas afirmou que “esse tipo de música ofende não só a dignidade das mulheres que comportam-se de acordo com o descrito em suas letras, mas toda e qualquer mulher, por incentivar à violência, tornarem-na justificável e reproduzirem o estigma de inferioridade ou subordinação em relação ao homem”.

Conforme decisão do juiz substituto Adriano Vitalino dos Santos, da 7ª Vara Federal de Porto Alegre, o valor da multa será revertido em favor do Fundo Federal de Defesa dos Direitos, conforme estabelece a Lei 7.347/85. A quantia deverá ser monetariamente atualizada, acrescida de juros. A empresa ainda pode recorrer da decisão em instâncias superiores.

“Vamos recorrer”

A equipe de som Furacão 2000 vai recorrer da decisão da Justiça que multa a produtora em R$ 500 mil pelo lançamento da música “Um Tapinha Não Dói”. “Voltou à censura ?”, questiona Rômulo Costa, dono da Furacão, que não acha justa a decisão.

“Acho injusto. Isso é cercear a nossa liberdade, não poder colocar as pessoas para cantar. É um precedente muito sério”, reclama ele, que diz ainda que não tem condições financeiras de pagar a multa.

“Com juros e correção, o valor pode chegar a quase R$ 1 milhão. Não teríamos condições de arcar com isso. Se tivesse esse dinheiro, parava de trabalhar”, diz.

Trecho da música

Um Tapinha Não Dói – Gravadora Furacão 2000

Vai Glamurosa
Cruze os braços no ombrinho
Lança ele prá frente
E desce bem devagarinho…
Dá uma quebradinha
E sobe devagar
Se te bota maluquinha
Um tapinha eu vou te dar

Porque:
Dói, um tapinha não dói
Um tapinha não dói
Um tapinha não dói
Só um tapinha..
Vai Glamurosa
Cruze os braços no ombrinho
Lança ele prá frente
E desce bem devagarinho…

Advertisements

10 Respostas to “Um tapinha que doeu”

  1. O Direito e o Avesso Says:

    Caro George,
    como falei antes, acabei de criar meu blog.

    Sobre essa notícia, acho que é um exagero.

    No livro O ANALISTA DE BAGÉ o personagem cansa de repetir: “em mulher não se bate, a não ser pra descarregar o stress”. Luis Fernando Veríssimo merecia ser condenado?

    Moreira da Silva tinha várias músicas em que falava de violência contra a mulher. Zeca Pagodinho, recentemente, na música FAIXA AMARELA, após dizer que ia dar colocar uma faixa com o nome da mulher na entrada da falvela disparava:
    “Mas se ela vacilar, vou dar um castigo nela
    Vou lhe dar uma banda de frente
    Quebrar cinco dentres e quatro costelas
    Vou pegar a tal faixa amarela
    Gravada com o nome dela
    E mandar incendiar
    Na entrada da favela”.

    Na MPB também podemos encontrar referência à violência contra a mulher.

    Se eu fosse citar aqui todas as músicas que têm um conteúdo parecido, passaria um dia inteiro escrevendo.

    Será que todos os autores/intérpretes/gravadoras dessas músicas mereciam censura?

    Particularmente detesto Funk, mas creio que isso além de ser uma postura exagerada por parte do MP (o que não é novidade) retrata também um certo preconceito com um estilo musical que vem da periferia e certamente não faz o gênero dos membros do parquet e do Juiz prolator da decisão.

  2. Anonymous Says:

    O MPF, como sempre, focado nos verdadeiros problemas que afligem a sociedade!

  3. Anonymous Says:

    Dr. George e o direito e o avesso,
    Pode ser, também, preconceito do MPF e do JF com relação ao funk. Porém, não vejo que uma música, de qualquer estilo ou qualidade, deva primar pela violência, racismo ou sexismo. A liberdade não é absoluta e, da parte dos senhores, há um certo conforto em só reconhecer preconceitos em temas “acertos” pelas contigências, como o racismo contra judeus… contra judeus, é racismo; contra negros (música do Tiririca), índios e mulheres, pode ser. Ora, não será uma visão racializada e sexuada limitada somente aos temas “sérios” da sociedade brasileira, lembrando que “pensamos” conforme o pensamento hegemônico, que, no caso, é branco (caucasiano, onde se inclui a maioria dos judeus), homem heterossexual, com posses de certa riqueza, e de formação acadêmica.
    Maximo

  4. George Marmelstein Says:

    Maximo,

    concordo, em parte, quando você deixa subentendido que há um exagero no combate ao racismo contra os judeus, mas isso é facilmente explicável pelo contexto histórico (nazismo e coisa e tal).

    Também defendo ferrenhamente que a base da dignidade humana é o respeito ao outro, independentemente de quem seja o outro.

    Contudo, em músicas como “Olha o Cabelo Dela” do Tiririca e “Um tapinha não dói” do Furação 2000, e milhares de outras pelo Brasil afora, não vejo um desrespeito ao outro capaz de atingir a dignidade humana.

    É uma brincadeira que não tem uma potencialidade de gerar um ódio ou um menosprezo pelo grupo em questão.

    Mas confesso que se for demonstrado, com um estudo sério e profundo (perícia), que as músicas geram um sentimento de inferioridade ou de violência contra as mulheres ou os negros, mudo de opinião ligeirinho…

  5. Milton César Says:

    Não acho que determinada letra de música, que exterioriza ou não o pensamento de um grupo de pessoas ou simplesmente é lançada para animar os aderentes a estilos musicais, fira a dignidade do sexo feminino ou do ser humano mesmo. Penso que é um exagero do MPF, pois os grupos que ele diz defender, as mulheres, são os maiores participantes dos bailes funk. Como o colega que iniciou os comentários falou, na MPB há vários exemplos de letras que “instigam” a violência contra a mulher, e contra nenhuma é ao menos relatado alguma indignação. Sou dos que acha que o poder público tem um tipo de preconceito, pelo menos subconsciente, contra o funk.

  6. George Marmelstein Says:

    Lembrei de algumas músicas semelhantes:

    Sílvia – Ira
    “todo homem que sabe o que quer, pega um pau pra bater na mulher”.

    Surra de Amor – José Orlando
    “pancada de amor não dói”

    Porrada – Titãs

    E por aí vai…

  7. Milton César Says:

    Pois é, e contra esses célebres músicos, tratando do mesmo assunto de que trata a música do furacão 2000, nenhuma autoridade se manifesta e, até, quem sabe, os admire.

  8. George Marmelstein Says:

    me corrindo: a música Sílvia é do Camisa de Venus…

  9. rené Says:

    Depois de tantos exemplos nefastos q os nobres amigos apontaram, já estava na hora de um homem digno (como é o caso do juiz em questão) fazer alguma coisa não?

  10. Humor e racismo « Direitos Fundamentais – Blog Says:

    […] comentário que fiz em relação ao caso Tiririca deve ser lido em conjunto com comentário que fiz em relação à música “Um Tapinha não Dói”, onde também defendi a liberdade de expressão, […]

Os comentários estão fechados.


%d bloggers like this: