Fazia tempo que eu não viajava filosoficamente aqui no blog. Por isso, para não perder o costume, vou dar um pequeno vôo. Não vai ser muito alto. Quem quiser acompanhar só precisa pensar na existência de três mundos… Calma, vou começar do começo…
Uma das teorias jurídicas menos aceitas do Dworkin é a idéia da “única resposta correta”, que ele defendeu há uns trinta anos. Pouca gente engole essa opinião do Dworkin de que, para os casos difíceis, há somente uma única resposta correta. Eu próprio sempre fui um crítico dessa teoria, apesar de, em geral, gostar das idéias de Dworkin. Só que, no seu “Justice in Robes” (2006), ele tentou justificar essa idéia de uma forma tão banal que é impossível não concordar com ele. Na verdade, me parece que ele alterou mesmo – e substancialmente – a sua formulação inicial (como não estou com os livros antigos dele aqui em Coimbra, não posso confrontar).
Basicamente, Dworkin defende, nessa versão mais recente, que, nos casos difíceis, há respostas melhores do que outras. E as melhores respostas são corretas nesse sentido. Então, entre várias soluções rivais, seria possível estabelecer qual a resposta mais correta, ainda que não exista um procedimento algorítmico de decisão que estabeleça com exatidão e certeza qual é essa resposta. Dentro dessa perspectiva simplificada, é inegável que a teoria da única resposta correta (pelo menos nessa versão) é correta, ainda que seja muito fraca.
Como não fiquei satisfeito com essa (nova) versão da teoria da única resposta correta de Dworkin, vou apresentar a minha própria teoria da única resposta correta só pra bagunçar o meio de campo. Para isso, vou precisar invocar a teoria dos três mundos de Popper.
Popper desenvolveu a metáfora dos três mundos com uma finalidade prática inegável: tentar demonstrar a objetividade do conhecimento e ajudar a esclarecer o complexo problema “mente-corpo”. Nas palavras do próprio Popper, “para compreender as relações entre o corpo e a mente, temos de admitir primeiro a existência do conhecimento objetivo como um produto objetivo e autônomo da mente humana, e em especial o modo como usamos esse conhecimento como um sistema fiscalizador na resolução de problemas fundamentais” (p. 12).
Assim, ele concebeu a existência de três mundos:
Mundo 1 – é o mundo físico, ou seja, o que a gente normalmente conhece por mundo;
Mundo 2 – é um mundo psicológico, dos estados mentais, ou seja, que está dentro das nossas cabeças (como os pensamentos, as emoções, os desejos, os sentimentos de um modo geral etc.);
Mundo 3 – é o mundo dos produtos da mente humana que ganham “existência” própria uma vez exteriorizados: a cultura, as teorias de um modo geral, a arte – tudo isso faz parte do Mundo 3. É aqui que está o conhecimento objetivo, abrangendo as hipóteses e teorias, os problemas não resolvidos, os argumentos a favor e contra qualquer hipótese etc.
Vou dar um exemplo meu para tentar explicar como ocorre a interação entre esses três mundos. Imagine uma partida de xadrez que está no seu momento culminante, ou seja, naquele estágio do jogo em que qualquer movimento errado pode causar a derrota.
O Mundo 1 é o mundo do tabuleiro, das peças, dos jogadores, das cadeiras e das mesas. É o mundo físico. Os movimentos das peças efetuados pelos jogadores ocorrem nesse mundo.
Na cabeça dos jogadores (Mundo 2), ocorre uma multiplicidade de “eventos mentais” que simulam as jogadas ou mesmo fornecem o “comando” para que os braços e as mãos possam movimentar fisicamente as peças no Mundo 1. Cada ser humano possui seu próprio “Mundo 2”, pois é um estado eminentemente subjetivo, ainda que afetado pelo Mundo 1 e pelo Mundo 3. Enquanto esses pensamentos subjetivos não forem objetivados por meio da linguagem, eles permanecerão no Mundo 2.
Finalmente, é possível cogitar a existência de um Mundo 3, onde estão todas as jogadas possíveis e imagináveis, bem como as regras do jogo, por exemplo. É claro que existem muito mais possibilidades de jogadas no Mundo 3 do que no Mundo 2, já que a mente humana possui uma capacidade limitada. Aliás, é por isso que os computadores estão ganhando dos seres humanos no xadrez: eles possuem um banco de dados com praticamente todas as possibilidades estratégicas possíveis. Os bancos de dados (ou melhor, o conteúdo dos bancos de dados) são produtos da razão e, como tais, estão no Mundo 3, ainda que possam estar “materializados” fisicamente no Mundo 1.
É preciso não confundir o Mundo 3 com o mundo das idéias de Platão ou das essências de Aristóteles ou o Reino dos Fins de Kant, por exemplo. O Mundo 3 é produto do intelecto. Logo, é um mundo em constante evolução, já que o conhecimento racional vai-se acumulando gradualmente. No Mundo 3, não está a “verdade absoluta” ou a “essência das coisas”, mas apenas o conhecimento humano objetivado, que é sempre limitado e falível, pois sempre há conhecimento novo a ser adquirido ou descoberto. As idéias que estão no Mundo 3 são idéias em evolução. É como se fosse uma biblioteca onde a cada dia são acrescentados novos livros. Ou melhor: é como a internet, que vai sendo alimentada com informações diariamente.
Para ver como essa idéia dos mundos popperianos é simples, basta ver o seguinte quadro que resume bem essa teoria:

:-)
Dentro dessa lógica, é possível desenvolver a teoria da única resposta correta.
Os casos difíceis, por definição, são aqueles em que há desacordo quanto à resposta correta. Existem pelo menos duas soluções possíveis, mas elas se chocam, fornecendo diretrizes contrárias.
Um caso difícil geralmente se desenvolveria do seguinte modo (pegando emprestada outra teoria de Popper):
P1 → TE → EE → P2
Explicando: diante de um problema de difícil solução (P1), os juristas propõem várias teorias experimentais (TE) rivais para tentar solucionar o problema, que são testadas dentro de uma lógica de ensaio e erro (EE). As teorias que forem sendo falsificadas são eliminadas nesse processo, ainda que permaneçam no Mundo 3 como teorias falsas. Uma vez solucionado esse problema inicial (P1), novos problemas surgem (P2), para os quais são propostas novas teorias experimentais e assim sucessivamente.
O conhecimento objetivo (Mundo 3) é fruto das teorias experimentais rivais que competem para solucionar o problema e se acumulam ao longo do tempo. Nesse sentido, diante das informações até então disponíveis, é inegável que, em algum lugar do Mundo 3, existe sim uma única resposta correta para um dado problema. Para ser mais preciso: existem múltiplas opções, mas apenas uma é a melhor, ainda que o juiz sentenciante não tenha condições de saber, com elevado grau de precisão, qual é essa solução.
Aceitar que existe uma única resposta correta não significa dizer que apenas uma resposta pode ser aceita pelo ordenamento jurídico. Na verdade, as duas respostas contraditórias podem ser aceitas sem problema. Basta lembrar do jogo de xadrez: há vários movimentos possíveis, todos igualmente válidos conforme as regras do jogo. No entanto, apenas uma corresponderá à estratégia vencedora.
Se o juiz tivesse uma capacidade ilimitada de fazer todas as simulações possíveis, tal qual o Deep Blue, certamente encontraria uma resposta que pode ser considerada como “a melhor”, pois teria acesso a todas as informações contidas no Mundo 3 e aí estaria apto a decidir da melhor forma possível. Dworkin, para isso, invocou a figura do Juiz Hércules, que seria tal qual um Deep Blue Jurídico.
Como os juízes não são Hércules, nem sempre as decisões judiciais que estão nas suas cabeças (Mundo 2) refletem a melhor solução (Mundo 3). Mas a melhor solução existe. Só está esperando ser descoberta ou talvez até tenha sido descoberta, mas nunca é possível saber se, realmente, a solução adotada é a melhor resposta possível.
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A primeira vez que vi a aplicação dos três mundos de Popper ao direito foi na tese de doutorado do Hugo Segundo, em que ele fez uma (ótima) relação entre o direito natural e o Mundo 3. Mas vários outros juristas também já usaram a mesma teoria para outros fins. Cito, em particular, Aarnio Aulis, que também mencionou os três mundos popperianos no seu “Rational as Razonable”.
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DUAS FORMAS DE DIZER A MESMA COISA
Lembrei de outra maneira de explicar a teoria P1 → TE → EE → P2 (para ver melhor, sugiro que clique aqui ou na imagem):
