Truth Be Told: Liberdade de Expressão e Propaganda Eleitoral

Por George Marmelstein Lima

Acho que no próximo semestre vou deixar de dar aulas expositivas para ficar assistindo, com os alunos, os episódios de Boston Legal. É, sem dúvida, a forma mais divertida de se aprender.

O caso que vou comentar é uma amostra bem interessante da força que os norte-americanos atribuem à liberdade de expressão. O episódio em questão é o S1E6 – Truth Be Told.

Eis os fatos: durante o calor das campanhas eleitorais para prefeito, um dos candidatos utilizou na sua propaganda eleitoral uma mensagem totalmente falsa a respeito do adversário. Era uma mentira deslavada divulgada com o único propósito de prejudicá-lo e tirar-lhe alguns votos. Por isso, o candidato prejudicado contratou o advogado Alan Shore para defendê-lo. O pedido era bem simples e direto: quero que o vídeo não seja mais divulgado daqui pra frente.

Quem conhece o sistema de proteção à liberdade de expressão que vigora nos EUA sabe que um pedido assim é absurdo. Para eles, isso seria censura política, o que não é admitido pela Constituição.

Mas Alan Shore aceitou o caso, mesmo sabendo que seria praticamente impossível obter vitória.

Nos debates judiciais, o advogado do candidato difamador sustentou que aquela ação não teria o menor sentido. Afinal, se algum candidato se sente prejudicado por notícias difamatórias tem todo o direito de esclarecer a questão na sua própria propaganda eleitoral. Na sua ótica, idéia se combate com idéia e não com censura. “Contra um discurso falso, use outro discurso”, disse o advogado, citando o Juiz Brandeis.

Nesse exato momento, Alan Shore interrompe e afirma que era natural o Juiz Brandeis dizer aquelas palavras. Afinal, ele era alcoólatra e pedófilo!

Momento de tensão no tribunal. Como assim? O famoso e respeitado Juiz Brandeis era pedófilo e alcoólatra? Que absurdo!, bradou o advogado adversário…

Em seguida, Alan Shore se retratou. “De fato, o juiz Brandeis não era pedófilo nem alcoólatra. Algum problema se eu fizer acusações falsas contra pessoas respeitáveis só para ganhar? Afinal, essa é estratégia do adversário do meu cliente”.

Simplesmente brilhante e típico de Alan Shore.

No final, contudo, a tese defendida por Alan Shore não prevaleceu. O juiz do caso argumentou que os discursos políticos não estariam sujeitos à censura judicial prévia. E assim, o candidato adversário poderia continuar espalhando mentiras à vontade e o máximo que poderia sofrer seria uma futura ação de reparação dos danos.

Eu já havia comentado aqui que acho exagerada a visão quase absoluta que os norte-americanos dão à liberdade de expressão, em especial em matéria de divulgação de notícias falsas. A meu ver, esse tipo de estratégia de divulgar notícias falsas para ganhar eleições é abuso da liberdade de expressão e, por isso, mereceria repúdio do Judiciário.

Nesse ponto, sou mais Alan Shore.

Parece ou não parece com a foto do banner deste blog?

5 Respostas para “Truth Be Told: Liberdade de Expressão e Propaganda Eleitoral”

  1. marcelo ramos barbosa Diz:

    idênticos, não dá nem pra saber quem é mais feio……

  2. Lena Diz:

    Pra serem feios têm que melhorar mt… brincadeira…

  3. Cláudio Colnago Diz:

    Assistir Boston Legal é a melhor forma de ensinar (e aprender) Direitos Fundamentais. Há um episódio (1×07) que inclusive me inspirou na formulação de questão de prova acerca da aplicação da máxima da proporcionalidade: a polícia quer remover uma bala do corpo de um acusado que, por sua vez, não quer que a bala seja retirada, por configurar intromissão indevida do Estado sobre sua esfera privada.

    Mas realmente, Alan Shore é o cara!

  4. Adriano Costa Diz:

    JESUS, MARIA e JOSÉ.
    O homem agora deu pra se comparar em “beleza” com Alan Shore!!!
    Big George, seu caso está mais sério do que eu imaginava… ainda bem que está chegando o final de semana para debatermos o assunto.
    Inté!

  5. Thiago. Diz:

    Enquanto já está na 5ª Temporada nos Estados Unidos, aqui temos disponíveis apenas até a 3ª. Por enquanto.

    Que dupla Alan e Dany Crayne. Mas a terceira temporada em Los Angeles está aquém das duas primeiras.

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