No ano passado, escrevi um post “procurando” um justificativa científica para a dignidade da pessoa humana, já que os velhos alicerces que sempre embasaram a noção de dignidade humana não colam mais. Dizer que o homem ocupa um lugar central no universo já não serve diante da constatação de que o Planeta Terra é praticamente irrelevante diante da imensidão cósmica.
Por conta disso, apoei minha busca no chamado princípio antrópico, aceito por alguns conceituados cientistas. De acordo com esse princípio, tudo indica que o universo “conspirou” para que existíssemos. Uma série de “coincidências” ainda não totalmente esclarecidas fizeram com que a vida surgisse no Planeta Terra. No início, a vida consistia em organismos bem simples, que foram gradualmente se tornando mais complexos, até que, ao longo de muitos e muitos anos de evolução, foram gerados seres capazes de ter plena consciência disso, que somos nós.
O princípio antrópico recoloca o homem numa posição de destaque e, de certo modo, é compatível com a crença em Deus, embora existam muitos adeptos desse princípio que são ateus. Mas não é sobre isso que quero discutir. Pretendo tão somente analisar uma crítica ao princípio antrópico formulada por Carl Sagan.
Para quem não conhece a opinião de Carl Sagan, basta dizer que ele defende com unhas e dentes duas idéias básicas: a ciência como critério para a descoberta da verdade e a existência de vida extra-terrestre.
Na defesa da ciência, ele é extremamente crítico em relação à crença no sobrenatural. Para ele, todos os fenômenos podem ser explicados com base na razão, na matemática, na física e na química. Logo, não há motivo para invocar mitos, divindades, supertições e outras crendices populares para solucionar os mais complexos problemas do universo. Em grande parte, concordo com ele.
A respeito da existência de vida inteligente em outros planetas, ele deixa bem claro que não acredita que existam extra-terrestres visitando a Terra. Aliás, ele é bastante cético e crítico quanto a isso, chegando a ridicularizar todos aqueles que alegam terem sido seqüestrados por alienígenas.
O que ele sustenta é mais factível. Para ele, há uma probalidade estatística muito grande de outros planetas terem sido agraciados com o bilhete premiado da vida. E, pelos cálculos matemáticos que ele apresenta, fica difícil realmente achar que os seres humanos são os únicos habitantes do universo com condições intelectuais de meditarem sobre a sua própria existência. Por isso, ele critica o princípio antrópico, já que pensar que o “universo existe para nos conter” é uma visão muito limitada do universo, além de arrogante.
Ora, sustenta ele, se eventualmente ficar demonstrado que existem seres inteligentes em outros planetas (e de acordo com ele, é muito provável que isso seja verdade), essa idéia de que o universo conspirou para gerar seres humanos vai por água abaixo.
Nessa loteria imaginária cujo prêmio é a vida, muitos outros planetas podem ter sido agraciados, diria ele. Sendo assim, a “sorte” de existirmos não seria muito diferente da sorte de um ganhador da loteria que compre milhares de bilhetes ao mesmo tempo. É natural que um desses bilhetes seja mesmo premiado, conforme as leis da estatística. E não haveria nada de especial nisso.
Mas será que não há mesmo nada de especial nisso? Ora, então por que outros bilhões de planetas não foram agraciados com a mesma lógica?
Tudo bem que falar que o universo existe para nos conter é um pouco exagerado. Mas que nossa existência é singular, não há como questionar isso.
A loteria da vida, na verdade, significa que foram distribuídos bilhares de bilhetes, mas apenas uns poucos (talvez apenas um) eram premiados. Portanto, pode até ser que existam outros planetas que tiveram o mesmo destino do nosso e também sirvam de habitat para espécies auto-conscientes. Mas isso não nos rebaixa enquanto seres privilegiados e imensamente sortudos. Afinal, se existem bilhões e bilhões de planetas em todo o universo e apenas uns poucos preenchem os requisitos necessários para proporcionar a existência de organismos pensadores, é um sinal de que temos algo de importante. E se temos algo de importante, então merecemos respeito e consideração, os ingredientes básicos da dignidade.
Talvez Carl Sagan concordasse com o meu ponto de vista, caso ele estivesse vivo. Afinal, ele não nega a singularidade do ser humano, nem a maravilha que é pensar e admirar o mundo que nos cerca. Muito menos questiona a dignidade humana, já que ele é um ardoroso defensor da humanidade, da paz, da liberdade, da igualdade etc.
O que ele quis mostrar, com certa razão, é que precisamos perder essa mania de acharmos que somos seres extremamente superiores, quase deuses, representantes do último estágio da evolução. Ele defende uma espécie de humildade cósmica, até para que possamos dialogar com nossos irmãos universais, que, asssim como nós, foram moldados por diversos fenônomenos fisico-químicos que se desenrolaram a partir do big bang.
Talvez ele esteja certo. Afinal, assim que a gente tiver a sincera capacidade de perceber a nossa irrelevância, talvez tenhamos a capacidade de demonstrar nossa grandeza. (alguém pode me explicar o que eu quis dizer nessa frase?)
Só um detalhe: as idéias de Carl Sagan, embora tenham sido desenvolvidas com as minhas palavras, foram inspiradas em dois livros: “O Mundo Assombrado pelos Demônios” e “Variedades da Experiência Científica: uma visão pessoal da busca por Deus”, ambos publicados pela editora Companhia das Letras.
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A propósito, para os que são fãs de ciência, recomendo uma visita beeeeem demorada ao site da NOVA-PBS: http://www.pbs.org/wgbh/nova/
Simplesmente, fantástico. Destaco, em particular, o documentário “O Universo Elegante“, baseado no livro homônimo de Brien Greene, que pode ser assistido na íntegra.
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Só mais um detalhe. No livro “Variedades da Experiência Científica”, a editora incluiu algumas fotos. Duas delas me impressionaram, razão pela qual as reproduzo logo abaixo.
A primeira representa o tamanho da Terra em relação aos demais planetas do sistema solar. Somos minúsculos, não é mesmo?
A segunda é uma pintura da Via Láctea. O sol pode ser qualquer um dos 200 bilhões de pontinhos mais brilhantes e pequenininhos que ficam nas extremidades. Ou seja, “o sol é uma estrela razoavelmente típica na nossa região, sem nada que chame nossa atenção”.


Maio 22, 2008 às 4:51 pm |
Caro G.M.,
Com as vênias de praxe, creio que a dignidade humana não pode ser entendida com base no princípio antrópico, mesmo porque o entendimento que tenho de tal difere do seu. Segue abaixo um rascunho do que penso ser tal princípio, com as necessárias ressalvas de que apenas gostaria de colaborar com a discussão, sem maiores pretensões.
Pode-se dizer que o princípio antrópico é, em resumo, um mecanismo puramente racional de se inferirem assertivas razoáveis sobre um suposto mundo externo. Sendo assim, veja-se que, sobre tal princípio, é certo dizer que o mesmo pode ser dividido em duas versões, quais sejam, a fraca e a forte. A primeira diz que, “em um universo grande ou infinito, [...] as condições necessárias para o desenvolvimento de vida inteligente só serão encontradas em determinadas regiões [...]. Os seres inteligentes nestas regiões não devem, portanto, se surpreender se observarem que o lugar que ocupam no universo satisfaz as condições necessárias para a sua existência” (Hawking, Uma Breve História no Tempo: Do Big Bang aos Buracos Negros. Trad. por Maria Helena Torres. Rio de Janeiro: Rocco, 1992, p. 175). Em outras palavras, de acordo com o princípio antrópico, diferentemente do que se esperava, pode-se afirmar que há informações de ordem insensível, isto é, de natureza estritamente racional, que dizem verdadeiramente respeito ao mundo. Seria como, por exemplo, afirmar que o buraco de uma agulha encontra-se nessa agulha, mesmo se ela estivesse perdida no palheiro, de forma que se vê, neste exemplo, que a pessoa que produziu tal assertiva a respeito do hipotético objeto perdido não usufruía naquele momento de nenhum dado sensorial a respeito da agulha, o objeto do qual ela fala, e, mesmo assim, sentia-se em grande medida confortável para proferir tal assertiva.
Dizer, portanto, que o buraco da agulha se encontra na agulha é proferir uma assertiva verdadeira sobre um fato do mundo sem que, para isso, tenha sido necessário o vislumbre empírico dos fatos desse mundo. Note-se, contudo, que embora tais afirmações sejam racionais, no sentido de que não são empíricas, elas não são, como o é a maioria das de estirpe sensorial, informativas, pois desfrutam, na realidade, de uma espécie de caráter tautológico. Isto é dizer que, de maneira alheia ao conhecimento de onde esteja a agulha no palheiro, a informação que se disse dela será verdadeira em quaisquer situações, quais sejam, o lugar onde ela se encontra de fato e todos os demais onde ela poderia se encontrar. Da mesma forma, pode-se dizer que, assim como o exemplo anterior, independentemente de quão rara seja a possibilidade de vida humana em um planeta no universo, o fato de haver seres humanos na terra que possam pensar isso é determinante para a assertiva de que a terra é um lugar cujas características são adequadas à vida humana, isto é, à existência de homens constituídos a partir de peculiaridades que permitam a elaboração de quesitos concernentes às possibilidades de vida humana no universo.
Repete-se, entretanto, que mesmo que informações deste tipo provenham de dados que não são de natureza sensória — sendo, portanto, racionais — e sejam veementemente fidedignas, elas não dizem muito sobre o mundo, pois, da mesma maneira que se pode dizer de alguns dados provenientes do empirismo, pode-se afirmar que essa informação é de natureza predominantemente tautológica. Ora, como já se disse, tal informação será tida por irremediavelmente verdadeira em qualquer mundo em que um ser vivo tiver conhecimento dela e possa entender o sistema lógico a partir do qual ela foi elaborada e, obviamente, o sentido e o conceito corriqueiros das palavras de que fez uso. Esse aspecto tautológico, portanto, é que torna a informação de tal natureza inócua e sem valor, no sentido de que é absolutamente desinformativa. Eis, portanto, o fracasso da tentativa de se fugir do empirismo no esforço de se declararem assertivas puramente não empíricas, ou seja, racionais, que sejam não apenas confiáveis, mas também — e muito principalmente — informativas sobre o suposto mundo real.
Por outro lado, contudo, não se pode negar que questões como as que o princípio antrópico levanta apresentam uma alternativa inteligente à abordagem do quesito de como se pode vislumbrar o mundo em que vive o homem. Aqui, vale dizer, é onde jaz o preciosismo da alternativa apresentada por Hawking (Uma Breve História no Tempo: Do Big Bang aos Buracos Negros. Trad. por Maria Helena Torres. Rio de Janeiro: Rocco, 1992, p. 175-176). Ele, por meio de sua abordagem, esclarece a idéia de que há muitas hipóteses de mundos — chamem-nas de mundos possíveis — que poderiam descrever a possível realidade na qual está o ser humano inserido ou que dela faça parte. Além disso, o princípio antrópico ainda inquire sobre os critérios que necessariamente permeariam todos estes mundos possíveis.
Em outras palavras, pode-se afirmar que, embora o princípio antrópico seja desinformativo, isto é, não seja capaz de dizer muito sobre os elementos concernentes ao suposto mundo externo, ele, o princípio em questão, desempenha um papel primordial na delimitação dos possíveis modelos que alguém possa elaborar para descrever o suposto mundo externo. O princípio antrópico é, desta feita, um aparador de asas da imaginação, um delimitador que traça linhas e raias fixas entre as quais — e somente entre elas — pode o espírito criador de mundos possíveis, ou seja, de modelos de mundos, exercer sua criatividade. É, portanto, tomando-se esta diretriz que se faz de bom alvitre que se investigue a delimitação dos mundos possíveis e, mais que isso, que se elaborem as inquirições concernentes à tal assunto, o que, por certo, não caberia aqui, neste singelo comentário.
Desculpe-me pelo (talvez desnecessário) alongado das palavras.
Lycurgo
Maio 22, 2008 às 10:08 pm |
Lycurgo,
são comentários como o seu que me estimulam a continuar com o blog.
Talvez estejamos mesmo tendo idéias diferentes sobre o sentido do princípio antrópico.
Vamos ver se entendi mesmo o que você quis dizer.
Se a gente puxar aleatoriamente uma carta do baralho e vier um sete de paus, certamente a gente vai pensar: puxa, é muita sorte a gente puxar um sete de paus, pois havia cinqüenta e duas cartas no baralho. Logo, o sete de paus deve ser uma carta importante.
É nesse sentido que você diz que o princípio antrópico é tautológico, não é mesmo? Afinal, qualquer carta que a gente puxasse poderia ser considerada especial.
Mas acho que o princípio antrópico não tem esse sentido. Na minha opinião, o princípio antrópico significa que o surgimento da vida humana não foi por acaso. Na verdade, ocorreram inúmeros fatores sucessivos bastante raros que resultaram na criação de um ser capaz de entender a criação e, quem sabe, até mesmo mudar o destino do universo.
É como se a gente embaralhasse as cartas e puxasse um sete de paus. Embalhasse de novo e viesse outro sete de paus. E assim sucessivamente durante muitas e muitas vezes. Desse modo, o sete de paus se torna realmente importante.
Tudo bem que a vida do universo é bastante longa. Cerca de quinze bilhões de anos. Isso certamente facilitou um pouco as tantas coincidências, sobretudo pela quantidade de tentativas, já que existem muitas outras galáxias. Mesmo assim, não se pode dizer que foi algo totalmente aleatório e sem propósito. Do contrário, Marte também teria vida inteligente, já que teve praticamente as mesmas chances que o planeta Terra.
George Marmelstein
Maio 22, 2008 às 11:42 pm |
Caro George,
Sugiro-llhe que leia MICRÔMEGAS, um conto de Voltaire. É muito bom, e o mais incrível é considerar a data em que foi escrito. Parece de Sagan, que talvez nele se tenha inspirado.
Maio 23, 2008 às 12:55 am |
Há ainda outra coisa.
Não há tanta coincidência assim, se pensarmos que estamos a falar de bilhões e bilhões (é muito tempo!!!) de tentativas e erros. É como tirar um milhão de vezes uma carta do baralho. Um dia sai uma determinada sequencia, por mais rara que seja…
Por outro lado, será preciso adotar o tal princípio para considerar que – por sorte ou não – o homem é raro, precioso, e por isso ele (e a vida em geral, em nosso planeta) deve ser preservado? Será que a dignidade da vida, e do homem, não pode ser considerada independentemente disso?
Maio 23, 2008 às 12:59 am |
Agora, e se descobríssemos extraterrestres inteligentes, teriam eles também direitos? Reconheceríamos sua dignidade, ainda que não sejam “humanos”?
E, dando um salto na viagem… E se um dia conseguíssemos construir uma máquina dotada de inteligência e consciência, teria ela direitos? Ou seria apenas um objeto, cuja destruição se resolveria no pagamento de indenização ao seu dono?
Maio 23, 2008 às 11:19 am |
Hugo,
mesmo que tenha sido uma sorte baseada em erros e tentativas, ainda assim acho que foi algo muito especial e, por isso, deve ter um propósito especial, ainda que não se acredite em um maestro regendo isso tudo.
Quanto ao fundamento da dignidade, concordo com você. Talvez o princípio antrópico seja desnecessário. Tanto é verdade que há vários cientistas que questionam o princípio antrópico (como o próprio Sagan) e acreditam na dignidade humana.
Mas o que questiono é o seguinte: por que somos especiais? Por que uma rocha também não tem dignidade?
Um princípio antrópico tem a vantagem de aumentar o círculo da dignidade. Com ele, não apenas os seres humanos são dignos de respeito, mas todos os seres vivos que eventualmente habitem o universo. Logicamente, os seres auto-conscientes teriam uma dignidade maior do que, por exemplo, uma planta.
Enfim, é algo a se pensar.
Quanto à maquina como ser dotada de dignidade, ainda resisto em admitir. Mas acho que será cada vez mais freqüente começarmos a conceder direitos (patrimoniais) às maquinas, especialmente àquelas que não têm dono específico. Não sei o que as máquinas vão fazer com dinheiro, mas que elas têm direito de receber por suas criações isso é inegável.
Ô, viagem…
George Marmelstein
Maio 23, 2008 às 12:39 pm |
Já que a figura-chave deste post foi Carl Sagan faço questão de repassar um spam que recebi bem engraçado. O que será que Carl Sagan diria disso?
Aliás, fiquei curioso para saber o que é “vampirismo astral”. Ô comédia…
Aqui está:
O que é o PORTAL RADIÔNICO – é uma técnica de poder interdimensional, capaz de pesquisar “ir fundo e longe” em situações pessoais que você esteja vivendo (de ordem profissional, financeira, amorosa, familiar, saúde, espiritual…) e possibilita a você reencontrar o seu equilíbrio e felicidade total. É trabalho confiável e eficiente. Os resultados são profundos e duradouros.
O PORTAL RADIÔNICO possibilita que você veja e redirecione:
* Aspectos dos carmas negativos de Vidas Passadas;
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Você já pensou que alguma dessas vibrações pode estar atrapalhando a sua vida?
A maioria das pessoas vive mergulhada em emoções negativas e não sabem que essas emoções negativas travam e impedem que sua vida flua. Desconhecem que os males da mente, do corpo e do espírito são causados por energias estagnadas e acontecimentos do passado, que se transformam em: medo ou culpa, inveja e violência, neuroses, taras, preconceitos, raiva…).
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Nao perca tempo e agende o seu horário.
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A ciências humanas e as diversas religiões estudam e explicam que tudo o que acontece na vida das pessoas está interligado.
A maioria desconhece que vivemos simultaneamente em várias dimensões de tempo/espaço e universos paralelos e um grande número prefere ignorar.
O PORTAL RADIÔNICO é uma técnica de Radiestesia e Radiônica, que fazem parte desse conhecimento oculto e que já é praticado em muitas culturas e povos em todas as épocas. Tornou-se mais conhecido na Idade Média.
A passagem do tempo e a modernização comprovam sua eficácia e o PORTAL RADIÔNICO mais uma vez retorna com toda força para benefíciar o ser humano, neste período em que todas as pessoas sentem dificuldades em encontrar a FELICIDADE.
Como funciona o PORTAL RADIÔNICO:
Por meio de instrumentos específicos de cobre, do pêndulo e comandos energéticos, são trazido à “mesa radiônica” as situações especificas a serem TRABALHADAS e DESMATERIALIZADAS para a TOTAL solução do problema em questão.
Maio 23, 2008 às 10:21 pm |
Prezado G.M.,
Só agora vi a sua resposta no seu celebrado blog. Assim, se me permite mais uma palavrinha, gostaria respeitosamente de esclarecer que o meu ponto é o seguinte: sendo o surgimento da vida por acaso ou não (pessoalmente, acredito que não, mesmo porque sou cristão protestante), o princípio antrópico não informa nada, pois somos humanos. Em outras palavras, mesmo que você considere que a chance de existência do homem no universo tenda a zero, o princípio antrópico somente poderia existir no ambiente em que tal chance se realizou e, aqui, já que ela se realizou, não importa se tenha sido por acaso (com chance baixíssima ou mesmo alta) ou não. Informativa seria a descoberta de um princípio do pensamento que informasse da existência de algo que não fosse pressuposto lógico da existência desse mesmo princípio. No caso do antrópico, repito, a existência do homem (ser pensante) é pressuposto de existência do princípio e, por esse mesmo motivo, o princípio não tem muito a informar sobre a humanidade, já que não existiria sem ela (eis a tautologia a que me referi).
Pelo exposto, acho muito improvável a construção de um argumento consistente para uma eventual justificativa da dignidade humana no plano metafísico. Seria, em certo sentido, uma volta às teorias naturalistas clássicas, como as de Cicero, Tomás de Aquino ou mesmo Finnis. Os jusnaturalistas modernos, como você bem o sabe, não mais fundamentam metafisicamente as suas idéias, mas vão em busca de justificações histórico-culturais. Parece ser esta a posturas, por exemplo, de Fuller e, quem sabe em menor grau, do próprio Dworkin.
Pessoalmente, caro G.M., ficaria bastante feliz com a possibilidade de argumentação metafísica em defesa da dignidade humana, mas, infelizmente, não veja saída para a fundamentação histórico-cultural…
Pelo menos, é ante onde vejo, mas, como sou um pouco míope, pode ser que eu esteja errado.
At.,
Lycurgo
Maio 23, 2008 às 10:23 pm |
Errata (Dois últimos parágrafos):
Pessoalmente, caro G.M., ficaria bastante feliz com a possibilidade de argumentação metafísica em defesa da dignidade humana, mas, infelizmente, só vejo saída para a fundamentação histórico-cultural…
Pelo menos, é até onde vejo, mas, como sou um pouco míope, pode ser que eu esteja errado.
Maio 29, 2008 às 11:49 am |
Lycurgo,
concordo que o conteúdo da dignidade da pessoa humana é relativo e tem motivos histórico-culturais. Mas também acredito que os motivos histórico-culturais podem ser explicados cientificamente. Por que a humanidade, hoje, acredita na dignidade humana como valor universal? Deve haver uma explicação científica para isso e não meramente histórica. Do contrário, a dignidade humana é apenas uma ferramenta acessória de poder, que pode ser descartada ao sabor dos valores dominantes.
Não acho que o princípio antrópico seja metafísico. É uma explicação plausível da importância da vida humana e, como conseqüência, a origem mais remota da dignidade.
Li recentemente (e vou comentar depois) o livro “O Gene Egoísta” de Richard Dawkins. Embora ele próprio (em outro livro) critique o princípio antrópico, seu pensamento também pode ser útil para reforçar a proteção da dignidade humana, ainda que por motivos não tão nobres.
No fundo, se a gente pensar em termos de evolução, e imaginar que o “nosso gene” é importante, podemos certamente pensar que o gene dos nossos parentes também são. E conseqüentemente, também são importanes os genes do nosso vizinho, dos vizinhos do nosso vizinho e assim por diante.
Como você pode perceber, minhas idéias ainda estão muito confusas, pois realmente estou entrando num caminho um pouco árido.
Mas pretendo, daqui a uns três anos, tentar demonstrar que a grande maioria dos direitos fundamentais pode ser explicada não apenas por razões culturais, mas também científica, com base na teoria da evolução.
Acho que a proteção da dignidade humana é um passo inevitável dentro do processo evolucionário caso a humanidade queira continuar a existir.